1. Contos reais

 Antonio levantava cedo, geralmente antes do amanhecer. Mas ainda faltava muita madrugada quando ele acordou, atordoado com as fortes batidas no vidro da janela:

-Que merda, Dana..! - ele resmungou ao refazer-se do susto e dar de cara com o sorriso aberto da namorada, que trazia uma cerveja em cada mão. Ela vai até a porta e aguarda, ele sai um pouco depois. Ela vai ao seu encontro com um beijo apaixonado Ele retribui, mas reclama:

-Não tá um pouco cedo pra isso, não?

-Nunca é tarde. Ainda não dormi, passamos a noite na festa da prima Irene. Resolvi vir tomar um "café da manhã" com você antes da aula..!

-Você vai pra aula desse jeito? Quer que eu acredite?

-Claro. Chego em casa, tomo um banho normalmente. Meus pais não iam me esperar acordados, mesmo. - ela riu meio alto, meio bêbada. Antônio pediu com um gesto que ela fizesse menos barulho, e ela baixou o tom, com meiguice:

-Guarda aquele lugar ao seu lado pra mim, tá..?

-Não se atrase para sua posse! - ele beijou-a e assistiu-a se afastar, meio saltitante, ainda bebendo a última / primeira cerveja do dia.

Ainda conseguiu dormir um pouco antes de finalmente levantar-se para iniciar sua rotina. Tomava café e deixava a mesa posta para os pais, que acordavam mais tarde porque muitas vezes trabalhavam até muito tarde. Então, Antonio saía rumo à escola, algumas vezes ainda no escuro das madrugadas. 

Se a sincronia estivesse afiada, ele logo encontraria José João dali a três quadras. Desde que podia se lembrar, isso acontecia. Por isso não é de se estranhar que os meninos acabaram se conhecendo e construindo uma amizade. Que àquela altura já somava uma década.

Os meninos eram adolescentes agora, mas João José continuava tão metódico e pontual quanto Antônio. O encontro acontecia quase que diariamente, e nas raras vezes que não rolava, era geralmente por atraso de João, que acabava alcançando Antônio mais à frente na base da correria.

Este era um daqueles dias. Antonio não gostou do sentimento que teve ao não ver o amigo descendo pela esquina costumeira. Mas ele teve apenas uma dúzia de minutos para se preocupar com isso, pois logo sentiu a esbaforida presença de João se aproximando.

-Pensei que dessa vez eu não ia conseguir te encontrar antes de chegar na Escola!

-Eu vim um pouco mais cedo, mesmo...A maluca da Dana me acordou com uma cerveja às quatro da madrugada.

-Ela falou que ia passar lá. Rolou uma festa no chalé de praia da família delas. Bota fora da Irene.

-A irmã da Mary Lou? - perguntou Antonio.

-Ela mesma. Vai fazer intercâmbio na Europa e viaja amanhã cedo.

-Eu não estava sabendo.

-Claro que estava, a gente falou várias vezes..! - João riu.

-Sabia que ia ter uma festa, mas não sabia que a Irene estava indo viajar. Que legal.

-A Mary tá putaça, porque os pais deixam a irmã viajar sozinha pro outro lado do mundo, enquanto ela não pode ir nem em festinha de aniversário infantil sem a irmã por perto.

-Mas ela ainda é muito nova mesmo né, João ?

-Ela é só uns anos mais nova que eu, poxa..!

-Como se você não fosse praticamente criança, também..! - Antonio zombou.

-Tá rindo do quê? Eu sou só cinco meses mais novo que você, oras!

Os dois adolescentes riram. "Nem sei quando vou voltar a ver a Mary fora da escola, agora que a Irene viajou..!" - João e Antonio foram analisando. Já visualizavam o grande prédio público da Escola na paisagem. Antonio aproveitou um momento de silêncio para finalmente perguntar:

-A Dana tava legal?

-Tava, cara. Tava sim. Ficou de boa lá, bebendo e brincando com as meninas. Eu fiquei de olho nela, mas ela só bebeu o normal mesmo. Ela tem se comportado...

-Eu me preocupo com ela.

-Relaxa, ela sabe. Ela ama você.

-Nem sei por quê...- Antonio pensou alto.

Já à porta da escola, encontraram-se com Mary Lou, a namoradinha de João José. Estudavam no mesmo Colégio, porém Mary por ser mais nova, estava em uma sala menos avançada do curso. Ela chegara antes dos meninos porque residia bem próximo à escola, mas também tinha se atrasado àquela manhã, depois de ter aproveitado a última noite de festa ao lado do namorado, antes que a "guardirmã" estivesse de viagem.

Os pais de Mary eram meio superprotetores em relação à caçula. Irene, a filha mais velha, terminara o ensino médio como uma aluna talentosa e de notas excelentes, que nunca dera nenhum tipo de preocupação aos pais. Era muito tímida e praticamente não tinha vida social fora da família - o que os pais entendiam ser o segredo do sucesso.

Mary admirava muito a irmã, mas não gostava nem um pouco da pressão que sentia dos pais para ser tão promissora quanto Irene. Muito menos de como eles simplesmente a proibiram de ser diferente dela até nos hábitos.

E desde que Mary se aproximara de Dana, a prima "rebelde", seus pais começaram a ser ainda mais restritivos quanto às atividades de Mary fora de casa.

-Hey, Mary, falaí - José disse após cumprimentar a menina com um beijo - Pra onde mesmo é que sua irmã vai?

-Finlândia..! - Mary Lou contou a Antonio.

-Finlândia? - Antonio repetiu, admirado. - Mas... por quê Finlândia?

-Sei lá! - riu Mary Lou. - Ela tinha um monte de opções esquisitas pra escolher: Canadá, Nova Zelândia, África do Sul... aí, escolheu Finlândia, e eu lembrei que já tinha ouvido você falando alguma coisa de Finlândia.

-O Antonio é doido pra conhecer a Finlândia. - esclareceu José.

- A cultura musical lá é fascinante... - Antonio explicou - A arquitetura, também!..

-Ah, então é isso...A Irene curte esses lances de arquitetura, design... - concordou Mary Lou.

Dentro da escola, a conversa cessou quando a bifurcação dos corredores conduziu os jovens por caminhos diferentes até suas respectivas salas. Antonio tomou seu lugar e notou que a cadeira ao lado da sua permanecia vazia, como haveria de permanecer até o final daquele período de aulas.

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