2. Lobos e ovelhas

De volta ao lar, Antonio dedilhava um piano, buscando novas canções.

Desde cedo interessou-se por música e aprendeu a tocar e compôr de ouvido naquele mesmo velho piano que chegara à casa como herança da falecida avó. Assim, o menino que já gostava de poesia aprendeu sozinho a juntar os versos com música e decidiu que gostaria de dedicar sua vida a isso.

João José era seu parceiro natural, demonstrando um talento excepcional ao violão. Além das aulas no conservatório, passava horas ensaiando para aperfeiçoar sua técnica. Era tão apaixonado por música quanto Antonio, e essa paixão serviu para unir ainda mais os dois garotos.

Às vezes passavam o fim de semana inteiro ensaiando e compondo músicas que apresentavam nos festivais escolares ou pequenos eventos da comunidade. João não opunha-se que Antonio escrevesse praticamente todas as letras sozinho, mas costumava fazer graça com a preferência do amigo em escrever sobre relacionamentos infelizes.

- Cê se amarra em um coração partido, né?

-A beleza só existe na sofrência, meu caro..! - Antonio respondia, bem-humorado. Achava suas letras bem comuns, cotidianas, aquela realidade morna de cidade pequena, pacata, onde o Amor e a Natureza eram os poderes máximos regentes.

Antonio anotava palavras ainda soltas por um caderno meio surrado. Tentava focar em um tema para trabalhar a nova melodia, algo que não fosse sobre "dor de corno" - como João tanto troçava. Veio-lhe à mente o assunto do último jantar em família, naquela noite : cachorros, porcos e outros animais domésticos da região estavam sendo atacados por algum animal selvagem de grande porte. Desta vez, foi o enorme cão de guarda da chácara vizinha, que amanhecera dilacerado.

-Ataque de onça, sem dúvida. - o pai de Antonio afirmava, com a boca cheia de galinha - Mamãe deve lembrar daquela vez que uma jaguatirica parrudona andava tocando o terror lá pelos lados do sítio. Quando desmataram pra fazer a usina em mil novecentos e...

-Lembro bem o suficiente pra perceber que isso não é ataque de onça, nada... Isso é coisa de lobisomem..!

-A vovó lembra até do lobisomem! - Antonio interviu, bem humorado. A avó fez uma expressão séria, ajeitando a dentadura.

-Pois não..! Era o filho do Seu Valdir. Um amor de guri. Mas em noite de Lua Cheia tinha que trancar, passar corrente nos pés, senão saía por aí causando desgraceira. Uivava na noite toda...

-Vovó, o filho do Seu Valdir era dependente químico, todo mundo sabia disso.

-Menino criado na igreja...pedindo benção dos pais... Vai virar "nóia" por acaso? Isso tá no sangue, meu filho! - e batia no braço magrelo, fazendo saltar as veias - Minha avó nasceu aqui e também sabia. Todo mundo sabia no tempo dela. - reclamou.

-Muita gente também sabe do E.T de Varginha, vó..!

-Seja como for, tem um bicho perigoso rondando à noite e ninguém vai ficar de bobeira na rua depois que escurecer, certo? - disse a mãe, encerrando a discussão. Mas o pai ainda comentou.

-Faz meses que estão procurando a danada da bicha... e nada!

-Queria que minha amiga Gladys estivesse aqui! - lamentou vovó.- Ela também lembra do lobisomem.

Gladys, a falecida avó materna de Antonio, também falava desse lobisomem. Sua fazenda tinha sido um dos alvos dos ataques lá pela metade do século passado. Na época o caso chamou atenção da imprensa nacional, houve até uma consequente exploração turística da região, que virou a 'cidade do lobisomem' por um tempo. Depois a lenda local foi caindo no esquecimento .

-Deixa disso, vovó. Um lobisomem que atacava naquela época não deve mais ter idade pra sair por aí estraçalhando a bicharada.

-Vai ver é parente..!

Antonio riu das crendices da avó. Sabia que ela já tinha ficado tempo demais nessa Terra, mas não gostaria de vê-la partir.

Com a história do lobisomem na cabeça, começou a rascunhar alguma coisa, mas o toque do celular interrompeu seu fluxo de pensamentos.

-Oi, Toni...

-Você não foi à aula hoje.

Dana ficou em silêncio do outro lado da linha. Ela nunca sabia como reagir quando estava errada.

-Resolvi tirar um cochilo e dormi demais - ela finalmente falou.

-Eu sei. - ele retrucou secamente.

Após novo silêncio ela perguntou:

-Vocês vão ensaiar hoje?

-Talvez. O João José ficou de me avisar.

-Posso passar no estúdio mais tarde?

Ele hesitou um momento.

-Pra quê?

-Só pra te ver. O João convidou a Mary pra ir, aí pensei em irmos juntas...Mas se você não quiser...

-Claro que pode ir. - Antonio respondeu virando os olhos.

-Legal! Então nos veremos lá!

-Ookei..!

Desligou o telefone e colocou o caderno de lado. Dana, como sempre, havia bagunçado seus pensamentos e ele não conseguiria continuar escrevendo nada.

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