3. Ninguém liga
Antonio e João José marcaram de encontrar-se no final da tarde, na escola de música próxima ao centro. João, como de hábito, cumprimentava com uma desculpa.
-Pô, Antonio, 'foi mal' ter convidado as meninas sem ter te perguntado nada antes...
-Bah, tudo bem. Hoje eu nem tô muito inspirado mesmo... o ensaio não vai render de qualquer jeito.
-Trouxe uma cerveja pra gente tomar depois.
-Quem é que estava de ressaca hoje cedo..?
-E daí... Hoje é sexta.
-Você não acha que é muito novo pra se embebedar?
-Ih...Você tá um saco. - concluiu João. - Vamos logo começar esse ensaio.
Quase duas horas depois, chegam Mary Lou e Dana. Mary, tímida, senta-se num canto do estúdio ao lado do namorado. Enquanto Dana conta empolgadíssima uma história extraordinária sobre um acontecimento qualquer, os meninos recolhem os instrumentos e desocupam o estúdio. Voltam a pé, caminhando pela rua larga, sob a luz do luar.
-Que noite linda! - repara Antonio.
-Eu não gosto de noites claras assim. - observou Dana.
-Por quê?
-Prefiro a escuridão. - o tom ambíguo de Dana se perdeu na distração com que Antonio acolheu a resposta e interpretou como brincadeira.
Deixaram Mary na porta de sua casa, para que ela fosse com a família levar Irene ao aeroporto. Dana reclamou que os meninos estavam desanimados e disse que ia para casa. Eles então seguiram em frente.
-E você, Antonio? vai fazer o quê?
-Vou para casa. Quero trabalhar naquela música nova.
-Ah, eu vou pro clube. Marquei de encontrar com uma gata que mandou mensagem na nossa página. Gostou da nossa música.
-Cara, você devia ser mais honesto, e terminar com a Mary Lou, antes...
-Mas eu amo a Mary! - João protestou. - Você sabe muito bem que eu só saio com essas meninas porque a Mary nunca pode sair de casa. O que eu vou fazer, me trancar dentro com ela?
Antonio olhava o amigo com ar de reprovação, mas achando graça em seu desespero legítimo.
-Quando ela puder me acompanhar eu páro! Pronto!
-Ela é uma boa garota, João..Só gosta de você porque ainda é novinha demais e ingênua..! - Antonio sorriu, mas João José estava bem ofendido.
-Pelo menos ela é confiável, não é a porra-louca da família. - ele rebateu, secamente. Ao que Antonio amuado, calou-se. Nada podia dizer em defesa de Dana. João percebeu que talvez tivesse pego pesado, deu um tapinha no ombro de Antonio.
-Hey, cara, foi mal. - embora mantivesse a expressão séria - Não gosto que ninguém fique me dizendo como eu devo cuidar da minha vida.
-Não, não acho legal brincar com os sentimentos dos outros. Tudo bem.
Despediram-se amigavelmente na esquina da casa de João. Antonio foi o último a encontrar seu destino. Lá fora, ouvia uma cachorrada distante viajar pelo silêncio da noite.
Dormiu debruçado no velho piano da avó.
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