15. Amor condicionado
Um mês após a partida de Dana, Antonio encontrou os pais dela em frente ao templo onde congregavam, passando de volta do mercado.
-Antonio, quanto tempo..! - cumprimentou o senhor.
-Sr. e Sra. O’Hara. É bom vê-los.
-Uma pena não nos encontrarmos mais em ocasiões felizes. - lamentou a senhora. Antonio sentiu-se constrangido, em um sentimento que pareceu abraçar os três.
-Ela volta. - ele apenas disse, quase que para si mesmo.
-Temos rezado dia e noite por nossa querida Dana, que Deus abra seus olhos e guie nossa pequena de volta ao caminho dos céus..! - o pastor falou, com uma eloqüência missal, ao que sua esposa ecoou: “-De volta ao bom caminho..!”
-Todos os dias, peço para ter minha filhinha de volta, entrando pelas portas do templo durante o culto, pedindo perdão a Deus por seus pecados e prometendo sua vida a viver dignamente segundo os ensinamentos do Senhor..!
-Aleluia! - glorificou a sra. O’Hara.
-Mas o senhor a perdoaria, se ela voltasse? - perguntou Antonio.
-Se Deus a perdoasse, meu filho… como haveria eu de condená-la?! - o pai de Dana esboçou um sorriso.
Semanas depois, ao telefone numa ligação de Dana, Antonio contou a ela sobre a conversa com seu pai e como ele falou que a aceitaria de volta, sob tal condição…
- Nem pensar, Antonio! - ela interrompeu,quase às gargalhadas. - Meu pai me transformaria numa escrava, condenada a ouvi-lo me exorcizar o dia todo, usar meu nome nas pregações como exemplo a não ser seguido...
O tom bem-humorado voltara à voz da moça. Sem que ela pudesse ver, Antonio sorriu em constatação.
-Olha, Tony, eu tô bem aqui. Arrumei um emprego legal no restaurante, faço uns bicos num bar aqui perto, tem música ao vivo, você e o João podiam bem vir fazer um show com a dupla, fazer uns contatos.
-E a escola, Dana? A gente vai se formar esse ano. Você tá indo à escola?
-Antonio, eu não tenho tempo para pensar em escola agora. Eu preciso me firmar aqui.
-Você não devia ter saído daqui.
Antonio sentiu a própria grosseria antes mesmo de responder, mas não procurou evitar. Irritava-o perceber que Dana não sentia nenhuma falta de sua cidade natal. Não parecia sequer sentir falta dele.
Ainda amava Dana, mas sem ver o próprio reflexo nos olhos da namorada, já não tinha tanta certeza se ela o amava de volta. Mesmo com as conversas diárias, Antonio sentia que Dana ia se afastando. No começo, acreditava que seria possível viver longe dela sem perdê-la. Mas nos últimos dias, parecia bem claro que algo não ia bem.
Dana levava horas para responder uma mensagem simples como um “como vai?”. Quando estava de bom humor, respondia imediatamente por horas seguidas. Antonio quase conseguia recriar aquelas noites no campo, conversando sobre tudo e caçando estrelas cadentes...desenhando com as constelações..!
Ela parecia realmente feliz a cada boa notícia que Antonio lhe contava, e sobre a banda sempre era muitas: Iriam tocar em mais três festivais naquele ano - infelizmente nenhum na capital, mas talvez Antonio conseguisse então bancar uns dias bem legais de férias por lá, com Dana.
Mesmo assim, ela ainda se afastava. Cada vez mais distante. Com o passar dos meses, Antonio chegou a cogitar se ela iria ao mesmo querer vê-lo, de qualquer forma. a saudade de Dana era tanta que, ao encontrar com os pais da garota numa outra ocasião, chegou a perguntar-lhes se tinham notícias da filha. A Sra O’Hara, com os olhos cheios de lágrimas, baixou a cabeça enquanto o pai tentava disfarçar a emoção e a ira. “-Aquela perdida..!” - ele balançava a cabeça, em desolada negação. “-Não sei onde eu errei.”
-Não sei onde erramos..! - a mãe suspirou.
-Sabe, meu rapaz - disse o Sr. O’Hara dando uns tapinhas amigáveis no ombro do garoto - Ela teve todas as oportunidades que uma moça de família aqui da região pode ter… Um lar estável, cristão, boa educação...E me sai essa filha rebelde, desafiadora,anarquista, blasfemadora..!
-Ela ainda é a nossa filha! - choramingou a mãe.
-A Dana trouxe drogas para casa, Antonio.
-Drogas, St. O’Hara? Certeza?
-Eu vi com meus próprios olhos, meu filho. Ela se injetando com drogas.
Antonio não soube como reagir. O pai de Dana percebeu.
-Você não sabia mesmo.
-Não..! Eu juro que não..! - Antonio estava chocado demais para perceber que o Sr. O’Hara havia feito uma afirmação, e não uma pergunta.
-Eu sabia que a Dana bebia demais , mas nunca sequer desconfiei que usasse drogas..!
-Parece que a gente que importa somos sempre os últimos a saber.
E então a raiva na voz do Sr. O’Hara passou e a tristeza soou legítima:
-Eu sou um homem conservador.Escolhi viver minha vida de um modo exemplar aos olhos de Deus, e por isso sou muito exigente. Mas não acho que exigir respeito da minha única filha seja exigir demais. Como vou manter a fé do meu rebanho, sendo pai de uma drogada, alcóolatra, que não sabe medir suas palavras? É uma cidade pequena.
Nesse ponto da conversa, Antonio sentiu um aperto no coração ao questionar, em seu íntimo, se os pais estavam mesmo preocupados com Dana ou com o que a congregação pensava deles por terem criado uma filha avessa à igreja. Antonio achou seu próprio pensamento mesquinho demais e tentou apagá-lo da cabeça, engolindo em seco.
-Eu preciso ir. - disse com educação. - Boa tarde, Sr. e Sra. O’Hara!
-Vá com Deus, criança. Vá com Deus. - despediram-se.
Antonio se afastou com a cabeça girando. Não conseguia acreditar que Dana estivesse usando drogas. Até porque, conheciam alguns usuários, que fumavam seus baseados escondidos nos acampamentos - e Dana sempre recusava. Apenas gostava de beber, e especialmente em certas noites.
O rapaz tentava montar o quebra-cabeça de Dana, e seu comportamento tão estranho e espontâneo. Era ela a pessoa mais sincera que havia naquela cidade - e todos haveriam de concordar com isso. Não tinha freios na língua desde criancinha, e ao atingir a adolescência, começou a declarar abertamente que achava a igreja “um saco”.
-Não fale assim! - implorava a mãe. -Nossa vida, nossa família é a igreja!
-Nossa família devia ser vocês e eu! - reclamava Dana - mas vocês estão sempre enfiados naquela maldita igreja!
-Você parou de ir porque quis, e eu e seu pai não iremos levá-la à força!
-Eu não quero ir porque não acredito mais naquela merda toda!
O pai se enfureceu:
-Olhaí...isso não é jeito cristão de falar!
-Não? O que é jeito cristão? É o jeito de um pai que nunca está em casa, porque vive viajando, pregando, trabalhando na tal obra do Senhor, que ocupa 24 horas por dia do seu tempo e NÃO INCLUI prestar atenção na filha “aborrecente” porque “adolescentes são assim mesmo”..!?
-Vá para o seu quarto! - o Sr. O’Hara chispou.
-Tá vendo? ‘Vi piri siu quirti..!” - Dana arremedou. - Não tem conversa. Vocês não ficam nem meramente curiosos para saber por quê eu não acredito. Ou se talvez eu acredito em alguma outra coisa. Isso não importa, né?
Os olhos da moça ficaram marejados, mas ela não recuou.
-O que importa é que eu não sou cristã. Então, sou uma “perdida”. E a culpa, deve ter sido de VOCÊS. - completou com firmeza, mas em voz baixa, só esperando a dor da cinta do pai, estralando em suas costas.
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