21. Estava um lindo dia

João e Antonio apressaram-se em deixar o estúdio e ir correndo em suas bicicletas até a casa dos pais de Dana. O sol nascia no horizonte revelando um belo dia de verão que começava, enquanto muitos vizinhos e quase toda a congregação aglomeravam-se no entorno da casa dos O’Hara. Mary Lou estavana varanda, e viu quando os rapazes se aproximaram. Acenou para eles, em um gesto que poderia parecer até informal e alegre demais para a ocasião, mas a leveza de seu cumprimento foi logo esmagadoramente oprimida pelo corpanzil de seu pai, que bloqueou-lhe a visão dos visitantes.

-Vá para dentro, Mary.

-Só vou cumprimentar o João e o Antônio, papai.

-Vá para dentro AGORA, Mary.

Mary Lou entrou, lançando antes para os amigos um olhar de susto e inquietação. O pai de Mary veio ao encontro deles, descendo os degraus da varanda.

-Creio não ser bom que fiquem por aqui.

-Por quê não? - João questionou- A Dana é nossa amiga.

-Porque o Sr. O’Hara é nosso amigo - corrigiu Antonio, com propriedade.

-Ele morreu de tanto desgosto que a filha deu, juntando-se com gente que faz música demoníaca!

-Que besteira absurda, senhor..!

-Vão embora daqui! - e apontando para João - E afaste-se de Mary Lou!

Mary Lou começou a chorar. João perdeu a paciência e respondeu.

-A família maluca de vocês é que deixa as meninas doentes!

Antonio começou a conduzir João para longe. - Deixa quieto. Vamos embora.

-Mas João estava fervendo:

-O velho safado morreu de culpa, por ter botado a única filha pra fora do lar!

Antes de saírem da propriedade dos O’Hara, ainda conseguiram ouvir o gemido do coração da mãe de Dana se partindo. João chorava, Antonio chorava. Não pelo pastor, mas pela amiga, Dana. 

Foram andando, sem rumo, num passo acelerado. João ia resmungando, dizendo que não iam tirar a Mary Lou dele. Antonio ponderava que não era hora para gastar raiva com aquilo. A cabeça de Antonio também estava a mil. Será que Dana já sabia? Claro que sabia, Mary devia ter dado um jeito de avisá-la antes dele. Será que ela viria para o funeral? 

Sua memória estava arranhada pelas imagens que João havia lhe mostrado de Dana, obscenamente exposta, convidativa, de uma maneira tão vulgar que Antonio sequer poderia ter imaginado antes. Sua namorada, a única mulher da sua vida, sua princesa, de repente saltando arreganhada como carne à sua frente. Antonio não conseguia parar de tentar imaginar para quem Dana posava, e por quê. Sentiu um ciúme insano, e por um momento rezou para aquilo serem fotos profissionais. Preferia - sabe lá porquê - mil vezes pensar em Dana fazendo aquilo por dinheiro, do que por amor.

Não havia ainda digerido esse sentimento quando soube da morte repentina do pai de Dana. O pastor O’Hara, o homem que Dana ensinara-o a culpar por sua fuga. Mas que ele, Antonio, descobrira ser apenas um pai sofrido, um homem que legitimamente não percebia seu erro ao negligenciar a única filha, em privilégio de suas atividades na igreja.

Nos últimos tempos, o pastor dedicava-se única e quase que obsessivamente à igreja e aos grupos de buscas organizados pelos homens da comunidade na caça da fera que rondava a área rural. Foi encontrado junto a uma espingarda calibre 36 em um campo. Aparentemente sofreu um infarto enquanto patrulhava uma área sozinho.

Antonio estava chocado. Havia se aproximado do pastor. Em uma daquelas conversas após a partida de Dana, ele lhe disse que haviam conversado.

-Eu cheguei a falar que a perdoaria e aceitaria de volta, se ela concordasse em viver de acordo com as regras da moral cristã.

Antonio bem se lembrava das palavras do velho.

-Ela ficou brava, acredita? Ficou zangada porque eu disse que meu amor tinha condição. Eu disse que é a condição de Deus, e ela ficou mais zangada ainda. Desde então, não nos falamos mais.

Antonio imaginava se o velho pastor teria morrido engasgado com aquelas palavras como as últimas que disse para a única filha.

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