9. Ao ar livre
O primeiro ensaio daquele outono já reunia uma banda completa. Antonio fazendo o vocal principal e teclados. João era a segunda voz e o violão. Tomas, o velho amigo de João também conquistou a simpatia de Antonio e trouxe seu talento e amizade para a banda. E Marcos, o menino-prodígio dos cultos musicais na igreja, trouxe o baixo.
-Está muito bom..! - Mary Lou comentava com Dana durante o ensaio.
Dana ia tirando fotos e fazendo clipes de vídeo sem parar, com sua câmera semiprofissional. Seriam dela os primeiros registros da banda: imagens raras que os fãs considerariam um privilégio ter visto um dia.
Foi ela também que dirigiu e fotografou o primeiro ensaio fotográfico promocional.
-Estamos tocando juntos há tempos e sabemos que o objetivo é nos lançarmos como banda...Mas alguém reparou que não temos um nome, ainda?
-Vai se chamar, sei lá, “Melô Tropical!”- Antonio anunciou, com o assentimento de todos, exceto Tomás que foi quem havia perguntado do nome… e a resposta pareceu deixá-lo absolutamente surpreso.
-...”Melô Tropical”?! - ele repetiu, meio incrédulo.
-É.
-Legal!
Estava batizada a banda que tocaria em público pela primeira vez oficialmente num evento do moto clube da cidade vizinha, como headliner de um festival. Era público garantido, porque na verdade era uma extensão do que já fazia sucesso: a mesma duplinha que já tinha emplacado com “Dor De Corno
Adolescente”, agora ressurgia como uma banda, com mais músicos, bailarinos e efeitos de palco.
Tomas estava empolgadíssimo, ensaiava as músicas o tempo todo e ansiava por este primeiro show com seus amigos. Antonio e João confiavam no talento de seus colegas e nas experiências como dupla. Não poderia dar errado.
Mesmo assim, a proximidade da data foi aquecendo os ânimos dos envolvidos. Dana contava os dias. Quando olhou no calendário, algo a fez conter-se. Seus olhos arregalaram-se por um instante e lágrimas brotaram dos cantos, mas ninguém viu.
Recompôs-se antes que alguém a visse. Mas seu coração partido era tão discreto quanto tatuar um elefante na testa.
O tempo infalivelmente trouxe o amanhecer daquele dia de show. E os primeiros raios de uma manhã bem cedo iluminaram o corpo seminu de Dana, que Antonio admirava com os olhos transbordando de amor.
-Eu amo você - ele sussurrava para a jovem ainda adormecida. Mal acreditava no que havia acontecido. Dana fora dele na noite em que Antonio teve uma mulher pela primeira vez na vida.
Ela abriu os olhos lentamente e sorriu. Feliz de estar sendo contemplada com tanto carinho. Sentiu-se incondicionalmente amada, pela primeira vez era como se sentisse muito, mas muito importante mesmo.
Um pensamento sombrio ameaçou-lhe o sentimento, mas ela tentou evitar. Naquele instante, só sabia que amava Antonio completamente, e que estava prestes a decepcioná-lo...demais.
-Bom dia, Dana.
-Bom dia, Toni.
-...é hoje! - os namorados sorriram juntos e se beijaram, ele sentindo-se o cara mais sortudo do mundo. Naquele instante, ele já era tudo o que sempre sonhou.Tomaram café e foram direto encontrar-se com a banda no estúdio. De lá, seguiriam juntos até a cidade próxima onde acontecia o “Sertajoça Open Air”, um festival a céu aberto promovido por um clube de motociclistas retirantes.
Havia estrutura de parque de diversões, barraquinhas de comidas típicas e um arremedo de camping. Antonio, João, Tomás, Marcos, Dana, a irmã de Marcos e dois auxiliares amontoavam-se na minivan dos pais de Marcos, que também eram músicos e providenciaram o transporte dos meninos. A viagem foi rápida e divertida. Pouco mais de uma hora depois, estavam chegando na área de carga e descarga do festival, ao lado do palco.
-Caramba! - Antonio não disfarçava sua admiração - É um tantinho maior do que eu imaginava…!
-Eu também imaginei algo mais simples..! - Os olhos de Tomás brilharam.
-Caramba, olha esse palco! - João se empolgou, correndo escada acima para espiar por detrás da cortina que, na ocasião, ainda estava fechada para o público.
Antonio arrepiou-se ao tentar adivinhar como seria o público do outro lado da cortina. Não era um evento barato: era o ponto de encontro de muitos universitários descolados, gente bonita, jovem,desimpedida e com dinheiro pra gastar.
-Não é engraçado pensar que não temos idade para beber, mas estaremos tocando pra um monte de gente bêbada? - observou João.
-Fale por você..! - Dana zombou, mandando ver num gole de cerveja.
-Você também não tem idade para beber, Dana..! - João rebateu a amiga, que retribuiu com um sorriso meigo, um gesto obsceno e um sonoro “foda-se”.
O baixista Marcos, coitado, ficava visivelmente travando uma batalha interna entre rir com seus amigos ou aceitar o uso daqueles termos chulos e o consumo de bebidas alcoólicas por menores de idade. Eram seus amigos e ele se divertia com eles, mas sua criação rigorosa ainda o deixava desconfortável diante de algumas situações.
Dana tirou a câmera da bolsa e começou a registrar. Aproximou-se de João, que interrompeu sua exploração pelo ambiente para tirar uma selfie com Dana.
-Essa é pra Mary! - ela sorriu, enviando a foto para a amiga.
-Queria que ela estivesse aqui. - João suspirou.
-A gente sabe - Dana assentiu. - É bonito o que você sente por ela, João, mas é feio o modo como você se comporta em relação ao namoro de vocês…
João olhou em volta, certificando-se que estavam à sós.
-O que….o que você quer que eu faça? Os pais prenderam a Mary dentro de casa!
-João, ela tem 14 anos! - Dana riu. E você sabe como nossa família é. Só tem fanático religioso. Ou você vive de acordo, ou te execram. A Mary ainda tá tentando viver de acordo.
-E você? - ele quis saber.
-Eu tô me esforçando para ser execrada.- Ela tira outra cerveja da bolsa e oferece para João. Eles brindam, ao show.
Neste momento, Antonio chega e não consegue disfarçar o desagrado ao pegar a namorada bebendo - e embebedando seu parceiro logo antes da estréia da banda em um evento daquele porte.
No semblante de Antonio não havia raiva, apenas decepção. João sai, sem nenhuma palavra. Antonio precisava dizer alguma coisa.
-Por quê você é assim, Dana..?!
Ela não ousava encará-lo. Talvez não soubesse a resposta tampouco. Seu rostinho bonito de adolescente tinha uma dolorosa expressão de vergonha e silêncio. Mas era ele quem tinha os olhos molhados.
-Você sabe que não devia estar bebendo. Não deixe o João beber também. Ele ainda vai subir no palco daqui a pouco, você não!
-Desculpas, tá? Sei lá, me empolguei. Estávamos batendo um papo-cabeça sobre a Mary Lou.
-Você também não devia incentivar a Mary a andar com o João.
- Por quê? Você é o melhor amigo dele, acha que ele não presta?
- O João é um cara incrível, mas para qualquer moça nesse momento ele será só decepção. E Dana… você sabe disso! Quantas vezes não o encontrou por aí com outras meninas.
-...e aquela senhora de meia-idade da loja de artigos em couro…
-...isso. Olha, Dana. Você sabe que o João não é o tipo de cara que a Mary Lou merece. Ela é mesmo muito nova pra namorar.
-Eu estou levando bronca por oferecer cerveja ou cumplicidade..?!
-No momento, a cerveja. Você tem um pouco de razão, nosso amigo pode não ser fiel, mas pelo menos podemos confiar de que ele não vai forçar a barra com a Mary.
-Já pedi desculpas e a cerveja já acabou.
Trocaram um rápido beijo.
-Vamos ver os camarins, eu não fui até lá ainda. O Marcos acabou de postar uma foto dizendo que é melhor que hotel cinco estrelas.
Acho que eu ia adorar conhecer o menino prodígio dos cultos musicais da igreja ;-)
ResponderExcluirResta saber quando será o próximo SOA... :-D
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