16. Chuva e sol não são a mesma coisa
A agenda de shows da banda de Antonio e João estava lotada. Eles se apresentavam em praticamente todos os fins de semana - e não mais nos casamentos e batizados que os meninos costumavam animar desde os treze anos. Eram palcos bem estruturados e públicos cada vez maiores. A banda era um sucesso.
Mary Lou andava inquieta. Não queria bancar a ciumenta, mas não estava gostando nada do assédio a João, que inundava as redes sociais. Garotas desconhecidas postavam fotos dele, algumas assinavam o sobrenome do músico. Ela sabia que isso acontecia, era um reflexo natural do sucesso. Mas não imaginava que fosse lhe incomodar tanto.
Mary Lou conversava muito com Irene, a irmã mais velha, sobre seu relacionamento com João. Era sua confidente e cupido - já que foi através dela que os dois se conheceram. João estudava na mesma classe que a irmã de Mary. Apesar de estar morando no exterior, as duas mantinham constante contato através de mensagens.
-Mary Lou, já te falei quinhentas vezes. Eu não te proibi de namorar o João porque sei que ele é um cara legal em certos aspectos, e não vai forçar a barra com você pra conseguir “certas coisas”. Mas escuta o que eu tô te dizendo: ele vai te magoar.
-Entendo minha irmã. Tá falando de sexo, né? Ele realmente não é que nem esses babacas novinhos que só querem isso… Ele tem a cabeça mais feita, e tal…
-Mary… HELOOOOO-OOO!? Ele não tem nem dezenove anos!
-Mas vai fazer semana que vem.
-Afff…! - Irene ria - Olha, Mary, quer curtir sua paixonite? Curte. Quer achar que o João é príncipe encantado? Talvez fosse, e talvez seja daqui a 20 anos. Mas agora, tenha consciência que ele é um mo-le-que, vivendo um delírio de rockstar. É melhor você sair fora antes que ele estrague tudo com você. Sério.
Mas Mary Lou ficava furiosa.
-Não é só porque vocês estudaram juntos que você o conhece melhor do que eu. Ele não me trairia.
-Tá bom. Olha, Mary, não diga que eu não avisei, ok? Quer quebrar a cara, quebra, só não vai inventar de fazer nenhuma loucura pelo João, porque ele tá mais soltinho que porco na vala, e mais perdido que namorado de gêmea…
-Que comparação ridícula! - bufou Mary.
-Irmãzinha, quero que você curta a vida, mas não se machuque muito tentando sobreviver à adolescência. Eu consegui, e eu tenho os mesmos pais que você, ó..!
Mary continuou ofendida e não respondeu. Irene deu uma adoçada no assunto. Agora ela estava longe, num país distante, vivendo sua independência, mas sabia o quanto os pais controladores deviam estar ainda mais rígidos com relação à caçula.
-O verão deve estar sendo horrível sem poder ir a lugar algum, né..? - perguntou.
-Quando o João está por aqui, a gente sai durante o dia… O problema é que ele quase nunca está.
-A banda tá fazendo tanto sucesso assim?
-Fecharam com uma gravadora internacional. Estão até fazendo clipe.
-Daqui a pouco vou ligar o rádio e ouví-los aqui na Finlândia? - Irene brincou.
-Duvido..! - Respondeu Mary, com um emoji meio aflito.
-Duvide não, que outro dia eu acordei ouvindo Michel Teló na rádio aqui de Helsinki…
Trocaram risos. Mary Lou se animou.
-Boooom… Se um dia isso acontecer então, você pode sair por aí dizendo que o guitarrista é seu cunhado..!
-Mary, você sabe que não é isso que eu vou dizer, né..? - Irene pontuou a frase com emojis de gargalhada, mas do lado de cá do aparelho, Mary ficou furiosa e nada respondeu. Apenas no final da tarde, mandou uma mensagem dizendo “Deixa quieto, a gente conversa outra hora. Beijos.” ao que Irene respondeu “Ok” e mandou beijinhos.
Mary sabia que ainda era nova, mas não uma tola. Ficou remoendo o que a irmã dizia, pois ela sempre vinha insinuar que o namorado a traía, mas ela mesma, Mary, não achava que tinha motivos para desconfiar. O assédio das garotas a João não era nenhuma novidade, já que ele sempre fora um garoto bonito, e seu talento o fizera popular. Mary entendia que o namorado era um artista, estava ficando famoso. Mas achava que para ele, ela era única e ele a amava. Por quê a trairia, se ele a amava?
Mary já achava que João se sacrificava muito em seu amor por ela. O namoro deles não era nada fácil e tinha muitas restrições. Em parte porque sua família era super conservadora e religiosa. E em parte porque Mary tinha apenas 14 anos.
A jovem abraçava o travesseiro e deixava as lágrimas rolarem. De repente, sentiu-se muito solitária. A irmã na Finlândia, fazendo intercâmbio. O namorado em turnê por cidades na distante região Sul do país. A prima e melhor amiga vivendo longe, na capital. Tudo parecia estar tão fora do seu mundo…
“Sinto sua falta” - enviou uma mensagem para Dana, ilustrada com a última foto que tiraram juntas, antes que a prima partisse.
A cidade inteira soube logo que Dana fugira. Mas por meses, não sabiam para onde. Ninguém, exceto Mary Lou e Antonio. E este último desconfiava que Mary não soubesse que ele sabia. Dana só era assunto aberto entre as pessoas que menos a conheciam. Para a família e os amigos próximos, parecia assunto encerrado. Ninguém mais questionava qual seria o paradeiro de Dana. O pai admitia que a filha teria fugido por causa de uma discussão que tiveram, mas ele dizia que “não poderia permitir que o demônio que a possuíra falasse com ele naquele tom, dentro de sua própria casa”.
Mary não tinha certeza se os tios sabiam onde Dana estava. O certo é que sua vida passara a ser ainda mais difícil após o pastor O’Hara começar a declarar que a filha estava possuída por algum tipo de entidade maligna. O fato da Sra. O’Hara ser irmã da mãe de Mary Lou e Irene gerou uma esdrúxula suspeita de que a possível possessão de Dana poderia ser algo genético, e assim, a garota passou a ser ainda mais rigidamente observada.
Mary sabia que Dana morava agora na capital, com um casal de produtores de vídeos e filmes, e fazia pequenos trabalhos de fotógrafa para eles em troca da acolhida. Quando soube que a prima havia arrumado um extra como garçonete, vibrou de empolgação ao pensar em como seria trabalhar em um bar descolado da capital.
Ela achava que Dana havia, de fato, tirado a sorte grande. Vivia finalmente livre daquela prisão disfarçada de igreja onde o carcereiro é Jesus. Assim, uma idéia foi nascendo na cabecinha ainda quase infantil de Mary.
Mas era só uma idéia.
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