7. Com os amigos ao lado
Dana passou o domingo todo na cama. Como tinha certeza que a filha não saíra e estava apenas curtindo uma folga, a mãe deixou-a dormir. Ela foi abrir os olhos às cinco e meia da tarde, com Antonio mexendo em seu travesseiro.
-Você se divertiu ontem à noite?
Dana engoliu em seco. Sentia-se ótima, mas com o corpo dolorido de quem correu uma maratona.
-Eu dormi a noite toda.
-E até agora? - ele perguntou incrédulo.
-Sim. - ela disse com firmeza. - Eu estava com a ressaca acumulada da festa da minha prima.
-Dana, você sabe que confio em você e não me importo de você ir aonde quiser, só quero que me conte onde foi!
- Amor, eu estive aqui dormindo a noite toda, pergunte à mamãe!
Antonio recuou. Sabia que Dana não assumiria esse risco se não tivesse plena confiança do que fazia, porque Antonio ia perguntar mesmo. Só por isso, questionar em si era desnecessário.
-Eu só tô cansada.
-Desculpe, amor.
Abraçaram-se e beijaram-se. Ele perguntou se ela pretendia dormir direto até o horário das aulas na segunda e ela disse que não.
-Que tal um jantar tranqüilo em qualquer lanchonete por aí? - ele propôs.
-Acho ótimo. Pra encerrar o fim de semana numa boa. Mas preciso voltar cedo.
-Tenho certeza que posso garantir isso. Aquela escola é ainda mais chata sem você.
Dana levantou-se e arrumou-se em poucos minutos. Sentia-se mesmo muito bem disposta.
Caminharam juntos até uma pizzaria de esquina no centro da cidade, onde outros casaizinhos jovens costumavam se encontrar. Não foi muita surpresa encontrar João e Mary por lá, acompanhados de Tomas, outro velho conhecido dos dois, e uma garota diferente.
-Essa é a Julieta, amiga da Mary!
-Aah, amiga da Mary... - Antonio repetiu, divertido. Tomas era muito tímido, e a turma vivia tentando arrumar encontros para ele. A julgar pela cara pouco entretida da moça, ansiosa por voltar os olhos pro celular, esta era mais uma tentativa frustrada... Mas Tomas parecia empolgado mesmo assim ao apresentar Antonio à Julieta.
- Esse é o cara de quem estávamos falando. Nosso frontman .
-E aí, tá dentro? -Antonio sorriu.
-Claro, pow. O João já explicou mais ou menos o que vocês têm em mente. Boto fé no trabalho de vocês. Vai ser uma honra fazer parte da banda de apoio!
-Demorou, esse cara é o melhor baterista da cidade! - até Dana festejou.
Acabaram todos sentando-se à mesma mesa, o que deixou Antonio só um tiquinho decepcionado, pois esperava um momento mais intimista com Dana. Mas sabia que tinham de resolver essa questão do grupo musical o quanto antes.
Antonio e João uniram seus talentos ainda cedo na adolescência, apresentando versões descompromissadas de grandes sucessos do brega e sertanejo em quermesses, churrascarias e restaurantes de beira de estrada. João no violão, Antonio no teclados, e ambos dividiam os vocais.
Com o tempo, as versões consagradas foram dando espaço para composições originais que caíram no gosto do público. Testavam as músicas entre amigos, depois incluíam no repertório. Foram para feiras regionais, rodeios. Com o grupo montado e músicas mais elaboradas, poderiam ficar maiores. "Muito maiores que essa cidadezinha besta" - pensava João.
Na saída do restaurante os amigos se despediram. João, Mary, Tomas e Julieta foram juntos de carro, pra dar uma esticada em uma festinha no centro. Dana começou a caminhar na direção de casa, mas Antonio a deteve:
-Espera! - segurou-a pelo braço, tentando não ser rude - Vamos de táxi.
-Antonio, minha casa é a três quadras daqui.
-Não tem problema. Vou com você - e depois, completou tentando disfarçar o receio - com esse bicho á solta...vai saber. As ruas estão muito vazias.
-Aposto que é uma onça...jaguatirica, bicho pequeno. Nem ataca gente..!
-É, mas noite passada tinha uma trilha de sangue lá pros lados da chácara do Professor.
-E..?
-"E" que o bicho lá andou atacando novamente.
-Claro. O "bicho", seja qual for, nem deve ser daqui. Não sabe como veio parar aqui. Está assustado e reagindo por instinto. E ele precisa se alimentar, talvez...
Antonio olhou para Dana, com a maior cara de ponto de interrogação. Dana deu de ombros.
-É só um bicho idiota.
-A população e a prefeitura estão há dias procurando essa "onça". Não há rastros ou sinais, nem mesmo pêlos de onça nos arredores.
-Estavam procurando pêlo de onça?- riu Dana - Como você sabe disso?
-Meu pai é biólogo, está participando das buscas.
Um táxi encostou, mas Dana seguiu o passo, deixando bem claro que não iria embarcar. Antonio pôs-se a segui-la. De braços dados, não cobriam nem metade do caminho quando desabou a maior chuva. Dana e Antonio sequer tiveram tempo de apertar o passo. Chegaram encharcados na casa dela.
-Eu até te chamaria pra entrar, mas sei que vou levar uma bronca louca agora, na sua presença ou não..! - ela lamentou sorrindo, habituada com a situação.
- Já sei como é, não vou piorar pro teu lado..
-Que nada! Mamãe e papai te adoram. Você tem que aparecer aí um dia pra jantar com a gente.
-Promessa.
Despediram-se e ele olhou Dana entrando pela varanda da casa. Nem sentia a chuva pesada desabando sobre seu corpo, só conseguia pensar que amava aquela menina.
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