6. Dois meninos

 João José chegou do estúdio e foi direto para o quarto, atravessando a "conversa" dos pais, que discutiam aos berros na sala Nem quis saber o motivo da briga, nem quem tinha ou deixava de ter razão. Só queria continuar com aquela vibração boa do ensaio daquele dia. Dedilhou o violão e pensou mais uma vez em terminar aquela balada linda que exigia mais concentração do que ele estava disposto a dedicar naquele momento.

Mas tinha um bom sentimento para aquela música, mesmo tendo a certeza que Antonio inventaria uma letra para torná-la um poço de tristeza..!

João gostava muito de Antonio. Foi o primeiro amigo que fez na cidade, quando sua família mudou-se para lá. João tinha quase seis anos, Antonio havia recentemente completado oito. Estavam na mesma classe, na mesma escola, mas apesar de dividirem um mesmo cotidiano, eram crianças muito diferentes. Formavam aquela espécie de "dupla dinâmica" que funciona bem apesar do aparente conflito interno.

Ainda eram crianças quando formaram  uma dupla e viraram o xodó das tias da quermesse. Logo vieram os convites para festinhas particulares, para os eventos municipais. No começo, Antonio ficava muito nervoso e esquecia as letras das musicas, sempre. Para melhorar seu medo de palco, começou a fazer aulas de teatro na escola, e foi assim que aprendeu a improvisar. Começou a aplicar a técnica também quando esquecia as letras, e acabou compondo versões bem originais e divertidas das músicas do repertório.

Isso chamou a atenção de pequenas produtoras locais e de cidades próximas. Deu uma certa fama à dupla, mas ainda não tinham o ônibus envelopado de dois andares com o qual sempre sonharam. Talvez a grande chance viesse agora. Pensar maior, acrescentar novos elementos, seria uma nova fase.

Parou de tocar ao ouvir a porta se abrindo. Sua mãe veio dar-lhe boa noite e dar-lhe alguma recomendação sobre a roupa suja. Ele ouviu, respondeu e viu a porta se fechar. Súbito pensou em algo e pegou o telefone. Esquecera-se de ligar para Mary Lou.

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