4. Mal sem nome
Quase meia noite. A Lua se aproximava de seu ponto alto no céu.
Debaixo das cobertas, Dana, os olhos fechados, suava frio. Finalmente, o barulho na porta: lentamente, ouve seus pais entrarem, tirarem os sapatos. Tentam não falar alto para não incomodar, mas Dana geralmente acharia impossível não acordar com os ruídos desajeitados de seus pais já idosos, chegando tarde da igreja, após seu pai pregar o último sermão e atender à comunidade.
Ultimamente, era cada vez menos comum que a filha estivesse em casa nesta hora. Mesmo assim, os pais tentavam tomar cuidado. A mãe, especialmente mais zelosa do sono daquela filha a quem tanto amava e entendia estar passando por uma fase difícil. O pai já não se conformava com a afronta que era ter a filha adolescente vadiando por festas e bares enquanto ele espalhava a Palavra do Senhor. Respirava aliviado quando notava que a garota está dormindo tranquilamente em sua cama.
A mãe se aproxima e Dana murmura "Boa noite", aos que os pais respondem e vão dormir, satisfeitos. O tom secretamente falso de sonolência de Dana disfarçou a ansiedade que já corroía-lhe o ser. Assim que a mãe fecha a porta atrás de si, Dana solta um longo suspiro, sai da cama, abre a janela e corre noite adentro, em direção aos milharais.
Correu o mais que podia. Ofegava, mas não parou até estar totalmente perdida na plantação. Jogou-se no chão, sentindo dores pelo corpo, e tentava controlar os calafrios enquanto agarrava-se à réstia de consciência que sentia esvaziar.
Segurava os gritos na garganta, respirando fundo, uma tremedeira louca de febre. Às vezes, sentia uma onda de tranquilidade aproximar-se de sua agonia, e a luta pela lucidez era a esperança de que em algum momento ela permanecesse.
Agora, a Lua ia alta, a noite claríssima. Encolhida no chão do milharal, Dana dormia. Aparentemente em paz. Uma gambá vinha passeando pela plantação. Decerto atrás de alguma espiga madura para roer. O bichinho atravessa as palhas secas, com aquele som peculiar.
Dana acorda.
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