17. Na bruma da manhã

João mal pôde acreditar quando recebeu o correio pela manhã. Foi correndo esbaforido até a casa de Antonio. Passou pela porteira baixa que estava sempre aberta, e foi bater na mesma janela onde Dana sempre batia.

Pelo vidro, já avistara Antonio sentado ao computador.

-Você viu isso? - João mostrava o envelope, aos berros. Antonio foi até a janela, João jogou o envelope e Antonio o pegou, examinando-o enquanto o amigo dava a volta na casa e tocava a campainha.

Um envelope preto, de fino acabamento, letras envernizadas, estilo “cartão de agente secreto”. Dentro, um convite oficial da maior gravadora do continente, para que os visitassem e considerassem uma conversa sobre um possível contrato.

A mãe de Antonio abriu a porta e foi efusivamente “bombardeada” por um João transbordante de entusiasmo juvenil. Quando o rapaz chegou ao quarto do amigo - e a mãe o seguiu, curiosa- encontrou Antonio paralisado, com uma expressão de choque.

-E ai?! - João perguntou, empolgado.

-Isso aqui é de verdade? - questionou Antonio.

-Ah...o grande negócio que vocês estão falando é esse envelope? - a mãe sorriu, meio ressabiada. - Tu também o recebestes, Tony. Eu é que esqueci de lhe avisar… - a mãe desapareceu por um momento e retornou com um envelope idêntico, personalizado com o nome de Antonio nas letras envernizadas.

-Caramba..! - ele exclamou.

-Caraaaaaaamba..! - João riu.

Mandaram mensagens para os amigos, espalharam a notícia. Marcaram um encontro para o fim da tarde. Até Mary Lou pôde comparecer. O sonho daqueles meninos do interior estava começando a se realizar. O sonho de Antonio estava finalmente acontecendo.

E Dana não estava lá.

Era um verão maravilhoso, eles estavam todos em férias. As famílias estavam felizes com o sucesso dos meninos, e alguém cedeu uma casa de veraneio para uma festa de comemoração à beira do grande rio que passava pelos arredores. Os jovens deram um show na sala, fizeram piqueniques no bosque. É possível que em algum momento uma amiga tenha precisado segurar o cabelo da outra no banheiro, mas nada mais grave que isso. Foram um dia e uma noite de diversão saudável, e todos sairiam felizes e seguros no dia seguinte…

Por isso, foi assustador escutar os gritos desesperados da vizinha, logo muito cedo pela manhã. Gritos que ecoavam horrorosamente por toda a parte, às margens daquele silêncio impecável. “Meu Deus do céu, o que foi isso?! Socorro! Senhor, o que foi isso?!” - a mulher urrava.

Antonio foi o primeiro a acudir. Era o único acordado à alvorada: não bebera quase nada e dormiu muito bem, com o cansaço e a felicidade da celebração. Achou lindo o amanhecer e dera voltas pelo loteamento de chácaras, com casas lindas e muito antigas. Muito verde e poucos muros. Ele gostava disso. Dava para ver, ao longe, o sol refletido na superfície da água mais adiante. E o silêncio, a não ser pelos pássaros. E pelos berros de agonia da vizinha.

Ele correu na direção dos gritos, escutando então uma voz masculina a pedir com firmeza “Acalma-te, mulher!”. Antonio então começou a se questionar se queria mesmo ver a cena que estava prestes a revelar-se diante de seus olhos.

As vozes vinham da parte posterior do terreno. Um celeiro onde a mulher abrigava um grande viveiro de aves, uma espécie de galinheiro, junto a mais alguns porcos, talvez alguns bodes ou um cavalo. Antonio não soube dizer com precisão ao chegar, pois estavam todos estraçalhados pelo galpão, com suas entranhas confundidas e espalhadas por todos os lados, até nas vigas do telhado.

Ao chegar, Antonio quase tomou um tiro de espingarda do dono da casa.

-Sou vizinho! Vim ajudar! - ele gritou, entrando com as mãos para cima.

O homem abaixou a arma e veio recebê-lo, enquanto um rapaz mais jovem retirava a mulher em choque da grotesca cena.

-Parece coisa de bicho..! - o senhor disse a Antonio, e começou a revolver os montes espalhados de feno, empapados com sangue. Antonio finalmente desviou os olhos.

-Acho que não quero ver.

-Tá feio mesmo, seu moço. Mas certeza que é coisa de cachorro do mato, ou onça que fez, viu? Os bichinhos da dona...tudo arrebentado. Um prejuízo de chorar.

Aos poucos, outros vizinhos e convidados da festa dos rapazes foram chegando para oferecer ajuda e matar a curiosidade. A garota que estava de ressaca vomitou.

Com o filho cuidando da mãe em choque, e a certeza do matuto em que não se tratava de maníaco homicida nem vândalo, o vizinho guardou a arma e chamou a polícia. Então, ficou fazendo sala para os inesperados visitantes.

A patrulha rural chegou rapidamente. Afastou os curiosos, isolou o local do massacre. Ao longo do dia, até canal de TV deu as caras por lá. Os pais dos jovens que estavam na celebração começaram a ligar feito doidos.

Por fim, concluiu-se que fora sem dúvida algum ataque de animal selvagem, e que todos ficassem bem seguros em suas casas, ou deixassem a área, se possível, em comboios, enquanto as autoridades prosseguiriam as buscas.

-E agora? Ficamos aqui trancados ou voltamos para casa? - questionou um dos garotos na festa.

-Eu prefiro ficar trancada aqui..! - resmungou a mocinha de ressaca.- Meus pais vão me matar.

-Não, gente, é sério. - interveio Antônio. - Não tem mais comida e alguém vai acabar inventando de sair pra buscar não sei o quê em não sei aonde, e vai virar bagunça. Vamos embora daqui. A festa acabou.

Tomás foi conversar com os patrulheiros, explicar que eram um grande grupo de jovens e esclarecer se seria seguro deixar o local àquela hora. O patrulheiro explicou que sim, era melhor que fossem durante o dia e preferencialmente em grupos. O baterista teve que segurar o riso ao escutar o patrulheiro comunicar a base, via rádio, que “já estavam orientando a evacuação dos moradores”.

João estava num porre só. Praticamente desmaiado no sofá.

-Como vamos tirar o João daqui? Ele veio de moto.

-Deixa ele aí. - riu a Mary Lou. - Ninguém precisa ir embora. O patrulheiro disse que podemos ficar, só não devemos sair da casa. A turma toda já está indo, mesmo, vamos ter comida suficiente. Estamos de férias, amanhã é domingo e a reunião com a gravadora é só na quinta.

Antonio olhou meio torto pra Mary Lou, desconfiado que a amiga estivesse bêbada. Ela sorriu.

-Relaxa, Antonio. Se eu, a pirralha da turma, tô falando que podemos ficar, é porque tá tudo bem. Essa casa é dos maus pais e todo mundo sabe onde a gente está. Já liguei pra mamãe e ela não achou problema de preferirmos ficar a tentar voltar pra casa de moto e com uma fera rondando..! - ela riu.

-Na real, eu tô até muito surpresa de ela ter sido tão compreensiva… - Mary observou. - Mas vou agarrar com tudo essa rara oportunidade de passar mais tempo longe dos maus pais. Você sabe que eu os amo. Mas..! - e os olhinhos dela brilharam de lágrimas. Antonio sorriu, beijou a testa da amiga. Ele compreendia. Ficaria com Mary Lou e João, poderia até aproveitar a oportunidade para compôr alguma coisa.

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