20. Os olhos não traem

 A banda agora ensaiava praticamente todos os dias, afinando o repertório e compondo novas canções para garantir o álbum de estréia pela grande gravadora. A turnê logo começaria. Havia uma quantidade insana de shows marcados para logo no início das próximas férias. Antonio estava inquieto. Não conseguia mais dormir cedo. Após o jantar, a cabeça sempre ficava mal. Pegou o hábito de caminhar sozinho à noite, tentando encarar seus pensamentos.

As músicas estavam ótimas. Produziam bem, e a banda estava entrosadíssima. Mal podiam esperar para filmar o videoclipe. João e Antonio eram sempre os últimos a sair do estúdio. Haviam criado uma forte amizade com os outros meninos, mas o que havia entre eles era sem dúvida, especial. E essa união era o verdadeiro “motor” da banda. Dessa vez o ensaio havia entrado pela madrugada e resultado no que viriam a ser duas novas canções. O sol já quase renascia, e os velhos amigos deixaram-se distrair pela conversa. Quando o silêncio finalmente os interrompeu, no entanto, Antonio achou que era uma boa hora para ter um papo mais sério em particular com o amigo.

-O que aconteceu aquele dia na chácara?

-Você quer saber de mim e da Mary, né?

-Claro.

-Nah. Não rolou nada.

-É bom…

-Bom?! Poxa, cara...obrigado! - João riu.

-Não, cara, sério! - Antonio explicou - A Mary é muito novinha. Tá apaixonada demais. Se você insistir, você leva. Mas tem certeza? Poxa..!

-Mas eu amo a Mary..! - protestou João.

-João, não tô dizendo que você não ama a Mary...Mas é que, tipo, você tá na pegada de curtir. Vai arrebentar o coração da Mary mais cedo ou mais tarde.

-Mas Antonio… Eu respeito a Mary, acho bonito pra caramba esse lance dela querer que seja especial e tudo… Mas pô, tecnicamente, não é traição. Entende? Porque se ela nem faz sexo comigo, não é que eu “prefira” fazer com as outras… é que a gente simplesmente “nunca fez junto”... assim…

Antonio chegava a achar engraçado a tentativa destrambelhada de João em tentar justificar seu notório comportamento promíscuo. Mas era triste na verdade, para qualquer um que conhecesse Mary, saber o tipo de vida reclusa que ela levava, enquanto ele ciscava por aí.

-Você sabe, Tony, que quando ela puder sair comigo, eu paro de sair com as outras.

-Eeeu não sei de nada..! -ria Antonio. - Mas se soubesse, diria que seria mais fácil então você sossegar e esperar a garota crescer um pouco para poder sair com você.

João e Antonio cresceram juntos, com pouca diferença de idade. Antonio era mais velho, mas João tivera muito mais experiências sexuais. Falavam disso abertamente, inclusive João era de fato o único a quem Antonio confiara detalhes sobre sua primeira vez, com Dana. João havia perdido a virgindade com uma mulher mais velha, logo que começara a fazer shows em dupla com Antonio. Aprendera muitas coisas, que apesar de logo começar a namorar a intocada Mary, mostrava-se disposto a ensinar para muitas das garotas da cidade.

João até tentou ser fiel. Mas não agüentou. Sentia muita falta de sexo e estava constantemente sob o assédio das garotas que iam aos shows. João, um garoto bonito, em pleno vigor, com uma arrebatadora presença de palco. Passou a equilibrar sua personalidade esfuziante com a imagem de bom namorado. Até onde pudesse.

Mary… pobre Mary! Por algum motivo, acreditava piamente na fidelidade de João. Ninguém na cidade parecia ter coragem de dizer à menina que deixasse para lá o rapaz, que poupasse a si mesma de ser “a chifruda da cidade” - ou pelo menos, do colégio.

Quando Mary achou que precisava se preparar para ter um namorado famoso, foi precavida em situações que as rivais inventariam para fragilizar seu relacionamento. O que seria uma dica saudável, se Mary não simplesmente a levasse a sério demais. Ela simplesmente se recusava a admitir que o namorado a traía, pois era sempre tão respeitoso com ela…!

-Esse cara só respeita as calcinhas da Mary porque tem um monte de outras calcinhas que abaixam para ele fácil, fácil..! - comentava Dana para Antonio, em muitas ocasiões em que observava o relacionamento da prima e do amigo.

Não que fosse um namoro visto com maus-olhos pela turma. João era sim, um bom rapaz. Só não tinha maturidade para relacionamentos românticos, estava óbvio.

-Antonio… - João interrompeu um momento contemplativo. - Acho que tenho que te contar uma parada séria, aí.

-O que foi, João? Crédo..! - o amigo estranhou o tom.

-É que é sobre a Dana…

Naquele instante, o coração de Antonio gelou, pois tinha certeza que João iria dizer que ela estava com outro homem. E ele ainda não tinha certeza se estava preparado para ouvir aquilo. Será que ela já esquecera que prometeram esperar um pelo outro? Ou será que só ele havia prometido aquilo?

João pegou o celular e começou a procurar algo. Ao encontrar, levantou os olhos para o amigo.

-Cara, tem umas fotos rolando no grupo da escola, e com certeza é ela,

Antonio.

-Eu não vi.

-Porque você é o anti-social que não tá no grupo da escola! - João tentou descontrair. Mas o assunto era sério, e Antonio nem achou graça. João também voltou à expressão grave. - É sério.

-Deixa eu ver, então. Duvido que seja ela.

Mas a palidez súbita de Antonio denunciou a verdade quando ele viu as fotos. Era indiscutivelmente Dana, se oferecendo para uma câmera, vestindo uma indumentária muito, muito sensual. Exibindo seus dotes femininos de forma totalmente despudorada, com um sorriso confortável.

Antonio sentiu uma pancada no estômago tão forte, que pensou que fosse vomitar.

-É ela, não é? - João perguntou.

-Eu… eu nem tenho mais nada a ver com ela, não é mesmo? - Antonio só murmurou.

João ponderou.

-Antonio, por quê ela faria isso?

-E eu sei lá? - o rapaz explodiu em ira - Porque é uma puta?!

-Antonio… A gente conhece a Dana desde criança.

-É. E desde criança eu sempre fui maluco por ela. Sempre soube que ela é a mulher mais inteligente, mais linda e mais divertida dessa cidade, desse universo inteiro. Mas pelo jeito eu me enganei, né? É só uma putinha drogada, egoísta e mentirosa…

Diante do desabafo magoado do amigo, João calou-se, deixando a surpresa carimbada em sua expressão. Antonio encarou o amigo, sem vergonha dos olhos marejados.

-Eu achei que sabia tudo dela, meu amigo. Eu nunca soube é de nada.

João continuou calado, esperando Antonio terminar seu desabafo.

-Conversei com o pai dela esses dias. O velho sempre gostou de mim, desde que começamos a namorar. Vinha sempre tentar me convencer a virar músico de Gospel ao invés de “envaidecer o demônio”, como ele diz. Tu conheces os papos dele.

-É, sei, ele já me veio com essa, também…! - João tentou sorrir.

-Pois é. - prosseguiu Antonio. - Ele me viu na rua e paramos para conversar. Começou dando parabéns pela banda, depois falamos sobre aquele massacre no celeiro da velha Zezéla...aquele papo furado, como se quisesse dizer alguma coisa, mas estava enrolando.

- Eu pensei que você estivesse com ódio dele.

-No começo eu tive muito. Eu o culpei pelo exílio da Dana. Porque vamos combinar que deve mesmo ser uma merda ser pastor de Igreja e pai biológico da pior ovelha negra da cidade…

- “Ovelha bêbada”! - os amigos falaram ao mesmo tempo, com um esboço de sorriso, levantando um brinde imaginário como Dana sempre fazia ao referir-se a si mesma. Ela parecia gostar de se chamar de “ovelha bêbada”.

-Pois é, cara. - Antonio continuou- A Dana era uma garota legal. Não dava trabalho com os estudos, estava sempre dando uma força na obra da Igreja, mesmo detestando religião…

- E ela era bacana com você, Antonio.

-Como assim?

-Poxa, eu não tenho porque mentir pra você, que é meu melhor amigo. E você sabe que eu não sou muito...bom, esse negócio de fidelidade e tal. Eu até queria minha garota ali o tempo todo. Mas você não, você é o cara de boa, eu trombava a Dana pelas baladas o tempo todo, você nunca marcou em cima…

-Pois é, João, mas eu sempre sabia que ela estava nas baladas, né? Aliás, geralmente ela mesma fazia questão de me deixar sabendo...e quantas vezes não apareceu aqui, na volta, fedendo a cigarro, bebida e gelo seco…

-Exatamente, exatamente. Eu saio escondido, na maldade. Ela não. Tá sempre bêbada, com as amigas, tirando foto, falando sobre aquelas doideiras de arte e cultura que ela adora… Mas se algum macho folgasse com ela, ela logo dava o fora, mandava passear.

-É, eu achava isso também.

-Por quê? Você descobriu alguma coisa?

-Não. Meu Deus! Você acabou de me mostrar fotos pornográficas da minha namo… ex-namorada, que recebeu no grupo da escola, da NOSSA escola… isso depois que o pai dela me contou que a viu se injetando em…

-Ei, peraê - defendeu João - injetar alguma coisa não significa necessariamente droga, né, Antonio? E a gente sabe bem que o Pastor O’Hara não sabe diferenciar cocaína de anticoncepcional…

-Acho que ele até faria mais escândalo se fosse anticoncepcional. - Antonio deu um meio sorriso sarcástico de deboche.

-De qualquer forma, sei lá, Antonio. Essa história é torta, sim senhor. A Dana é malucona, vivia bêbada, mas acho que a gente seria capaz sim, de perceber se ela fosse drogada.

-Eu também achei que seria capaz de saber se ela era do tipo que faz fotos assim, como as que você acabou de me mostrar.

-Tá, e se for uma sósia?

-João, vai por mim: NÃO é uma sósia…

- Sei lá, Antonio. Pra mim parece um pouco que a Dana está é em apuros.

Antonio não conseguiu mais conter o choro.

-João...A Dana não está “sumida”, como todo mundo pensa. Ela me procurou antes de fugir.

-E você não contou isso pra ninguém?! - João chocou-se - Nem pros pais dela?!

-Você tá louco?! Eu culpei o pastor O’Hara pela fuga dela, esqueceu? Ele mesmo me disse que a expulsou quando descobriu sobre as drogas e ela ainda deu uma resposta insolente. Eu achava que ele tinha descoberto que a gente tinha transado. Imagina, o pastor expulsa a filha única de casa porque ela não era mais virgem… e quem tirou a virgindade dela fui eu!

-Credo, Antonio, não sei se isso é terrível, ou se dou risada, juro..!

-É, nem eu. Mas na época foi uma coisa meio “Romeu e Julieta”, sei lá. Ela “precisava” partir para afastar “a vergonha” que tinha dado à família. Mas que logo iríamos nos reencontrar e tudo daria certo… blablabla.

-Por quê “blablabla” ?

-Porque ela foi se distanciando. No começo mandava fotos, mensagens… conversávamos o dia todo…. Eu sentia a presença dela o tempo todo, até mais do que antes, porque tínhamos muito mais assunto, ela me contava tudo sobre as novidades da vida dela, lá…

-E você contava pra ela as evoluções que nossa banda teve, né?

-Claro...a Dana botava fé pra caramba no nosso som. Fez o primeiro site, as fotos...sempre deu aquela força incrível pra gente…

-É, a Dana foi nossa primeira fã. - João riu.

-Se você falasse “groupie”, eu ia quebrar a sua cara. - Antonio brincou.

Deu um suspiro e continuou a deitar sua sofrência:

-Mesmo depois que ela partiu, ficamos uns dois ou três meses muito próximos. Ela até me contou que estava trabalhando de garçonete em um restaurante que tinha música ao vivo, e que veria a possibilidade de a gente marcar um show por lá…

Antonio abriu a pesada janela do estúdio, olhou para o céu ainda um pouco escuro procurando as estrelas. Talvez uma estrela cadente. Voltou o olhar para dentro da sala, pegou as baquetas que Tomas deixara em cima da bateria, e começou a batucar no ar.

-Ela demorava cada vez mais pra responder as mensagens, e às vezes simplesmente ignorava algumas. Respondia um tempão depois, só com um “oi”...

-Entendi. - apenas disse João.

-Em certas noites o papo rolava, como sempre foi. Ou como sempre deveria ser, né… - suspirou - Tinha vezes que ela mandava foto, comentava sobre as pessoas que encontrou…

João notou que o amigo estava ficando um pouco melancólico demais, e achou por bem quebrar o clima com um gracejo: -Ih, Antonio, pára. Cê tá começando a soar igual minha irmã, falando das tretas dela com o namorado..!

Os dois riram. Antonio tentou disfarçar os olhos vítreos.

-Desculpe, é que falar da Dana é foda. - Antonio ainda sorria, mas passou a mão pelos olhos. - Ela foi se afastando, ficando ausente, e eu sem entender. Aí vem o pai dela e fala de drogas, aí vem você e me mostra umas fotos dessas, e eu...sei lá. Eu me sinto um idiota.

João sentiu-se corar.

-Puxa, cara..! Foi mal. Assim, eu não quis dizer…

-Tudo bem, meu amigo. Tudo bem. - tranqüilizou Antonio - Você não tem nada a ver com isso, que eu sei. Mas é foda, cara..!

Os amigos abraçaram-se. Quando separaram-se, Antonio alfinetou, em um tom mais leve:

-Por isso eu te falo para tomar cuidado e não machucar a Mary Lou, caramba…! Coração não é brinquedo.

-Ai, ai, ai, ai..! - João rolou os olhos.

Sentiram então que aquela volta ao início da conversa seria uma boa oportunidade para encerrar o assunto, por hora. Mas o toque do telefone do João não permitiu que o silêncio se instaurasse por completo. Antonio procedeu a organizar alguns cabos pelo estúdio, sem prestar atenção na conversa rápida e de tom preocupado que João levava ao telefone.

Ao desligar, ele encarou Antonio, que notou uma evidente palidez na expressão do amigo:

-Era a Mary, cara. Ela disse que o tio dela, o pastor O’Hara, acabou de ser encontrado morto, lá perto das plantações.

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