14. Sem olhar para trás

 Nos dias que se seguiram não se falava em outra coisa na cidade, além da partida de Dana. Não havia mais o que se pensar em seqüestro ou homicídio, pois do próprio telefone, Dana havia mandado mensagem em vídeo para os parentes, dizendo que estava viva e bem, mas que não voltaria mais e não usaria mais aquele número de telefone.

O Sr. O’Hara, seu pai, ficou triste, mas irredutível. Repetia que havia sido melhor assim, que a filha escolhera o próprio caminho, mas que rezaria muito para livrá-la das tentações do demônio. Sua esposa não levantava os olhos, apenas balançava a cabeça em concordância, repetindo em um murmúrio: “Vamos rezar muito”.

Dois dias mais tarde, Dana mandou uma mensagem diretamente no telefone de Antonio, com seu novo numero de contato. Antonio demorou para responder. Estava chateado. Trocaram algumas mensagens, ela lhe mandou fotos do casal que a acolheu, falou de seus planos de encontrar um trabalho, e em breve ter seu próprio espaço. Falava do encantamento da cidade grande, de como sentia-se interiorana naquele mundo cosmopolita, longe da “vida de caipira” que ela conhecia. Contava, empolgada, detalhes de suas explorações na capital. Mas Antonio parecia levemente irritado.

- Que bom que você está gostando tanto assim, né?

- Eu sei que pra você, que já veio aqui várias vezes, devo estar parecendo caipira demais.

- Não. Ainda não. - e deixou sair o que estava preso na garganta e na idéia: - Dana, volta. A gente dá um jeito..!

- Antonio, eu não posso voltar. Eu não vou voltar. Agora.

Ele não respondeu. E ela não mandou mais mensagens.

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