18. Sobre lugarejos e lendas

O ataque de um animal a um celeiro, numa zona rural próxima a uma área de preservação ambiental não era uma notícia assim tão digna de ser investigada pelo jornal do horário nobre quanto aqueles adolescentes pensavam. Assim, dificilmente se saberia o que realmente aconteceu naquela chácara, antes de uma onda de versões fantasiosas e absurdas terem percorrido a comunidade.

Ataques daquele tipo na região eram uma realidade enfrentada desde que os primeiros homens habitam aquelas terras. A mata no entorno era mesmo habitat natural de alguns carnívoros de médio e até grande porte, que eventualmente atacavam animais domésticos em fazendas.

Tais ataques foram se tornando cada vez mais raros ao longo dos anos, com a crescente ocupação humana e diminuição do número de espécimes na região. Mas às vezes, aconteciam. Geralmente ocorriam em série, até que a guarda florestal capturasse o animal e o recolhesse a uma reserva mais distante da cidade. As notícias das capturas, essas sim, chamavam a atenção da mídia.

Outra coisa que infelizmente também acontecia - também para deleite da mídia e escândalo dos ambientalistas - era que o animal acabasse abatido por algum habitante local. Um velho fazendeiro da cidade ainda possuía as cabeças empalhadas de pelo menos quatro grandes felinos que atacaram sua criação, isso lá pelos anos 60.

De qualquer forma, a pacata cidadezinha estava toda agitada, em meio ao marasmo cotidiano das férias de verão. O assunto era obrigatório em todas as conversas. Isolados na chácara, os três jovens porém deixaram os ataques de lado e seguiram focados nas novidades que viriam com os horizontes da banda em expansão. As conversas eram sempre sobre o contrato com a gravadora, as turnês que fariam, os lugares e pessoas que conheceriam. João incluía Mary em todos os planos, e ela embevecida, pensava: “Claro que ele me ama!”. Passaram o dia cozinhando, conversando e jogando velhos jogos de tabuleiro. Após o jantar e a louça lavada, Mary e João adormeceram no sofá, e Antonio resolveu checar as redes sociais.

Muitos haviam postado fotos do cenário horrível daquela manhã. Antonio desviou os olhos: já havia sido traumático o suficiente ter estado no local. Porém, algo chamou sua atenção e ele resolveu olhar novamente. Sem o cheiro característico e os gritos desesperados da velha senhora, pôde atentar a certos detalhes que não enxergara no choque do momento.

Percebeu então que os animais estavam dilacerados, porém não lhes faltavam pedaços, como disseram. Inclusive, as partes não pareciam estar mastigadas, apenas rasgadas. “Que tipo de bicho adentraria um celeiro apenas para matar, sem devorar os animais?” - pensou.

Antonio sorriu ao lembrar das lendas que surgiam com esses episódios, e das histórias que lhe contava sua avó, que a vida inteira passou na cidadezinha. Toda vez que algum bicho aparecia morto, ela jurava que tinha sido um lobisomem. E contava novamente tooooooda a história que “ela sabia porque ela estava lá!”.

Na verdade o tal “lobisomem” que a avó jurava ter conhecido era o filho mais novo de um pastor idoso, já falecido, que congregava na igreja local antes do pastor O’Hara. O jovem tinha problemas mentais e tornou-se dependente químico. Para que não fugisse e usasse mais drogas, os pais uma vez o deixaram preso no celeiro quando foram para o serviço da igreja. O rapaz entrou em abstinência, tentou destruir o celeiro e matou vários animais à dentadas.

“Nos tempos da vovó, doenças mentais e uso de drogas talvez não fosse algo tão socialmente esclarecido quanto na geração atual…”- Antonio pensava que talvez devesse escrever uma canção sobre aquilo. Não os ataques, mas a credulidade das pessoas…

“-...e como ele uivava..!” - Vovó insistia, sob os olhares duros da mãe de Antonio, que não gostava nada de ouvir a sogra contando aquela história de terror para os netos, desde pequenos. Sobretudo porque ela nunca esquecia de mencionar que “ a Gladys, até namorou com ele!”. 

As duas avós de Antonio haviam sido melhores amigas desde a infância, mas Gladys faleceu quando Antonio ainda não tinha quatro anos completos. Lembrava vagamente de sua presença durante algumas vezes que o assunto surgira na família, mas não era capaz de lembrar-se da opinião da tia sobre ter namorado um lobisomem - ou um dependente químico com uma doença mental - Antonio riu sozinho ao imaginar o impasse da avó em admitir que algo assim tenha feito parte de suas escolhas rebeldes de juventude.

A taça de vinho que bebera o embriagara na procura por mais doces lembranças de sua infância. Fechou os olhos e perdeu-se em pensamentos.No sofá, às costas de Antonio, João e Mary deitavam-se abraçados, e começaram a se beijar. Os abraços iam se tornando cada vez mais apertados, e ele começou a deslizar as mãos pelas costas dela. Nesse momento, ela parou.

-Não dá. Desculpa.

-Podemos ir para o quarto…

-Não, João. Não dá mesmo. - ela firmou.

-Tudo bem. - ele concordou num suspiro, afrouxando os braços ao redor da menina.

-Eu sou muito nova, João.

-Eu sei. - ele engoliu em seco.

-É tudo muito estranho.

Ele a beijou nos cabelos, abraçou-a novamente e sentiu seu coração bater forte e acelerado.

-Amo você, Mary Lou - ele suspirou. - Não tem problema.

Voltaram a adormecer. Antônio também. Dormiu sozinho, na poltrona da sala. Sonhou com Dana a noite toda.

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