5. Sobre um homem, um amor, uma mulher, e como tudo isso vai pro saco

 Lá estava Antonio de novo, no estúdio, tocando notas soltas, sem concentração suficiente para criar. Repassava as quatro primeiras notas de uma música que urgia em sair, mas esbarrava na falta de concentração de Antonio. A chegada de João José quebrou a torrente de pensamentos desconexos quepercorria sua mente.

-Trouxe uma música nova hoje! - João foi animadamente falando, e já tirando o violão da capa para mostrar a melodia que compusera na noite anterior.

Antonio foi ouvindo, a princípio meio distraído, mas depois as idéias começaram a fluir. A poesia começou a fazer sentido. Era a história de um homem bom, que honra a educação que sua mãe lhe deu. Mas este homem fora traído pela esposa e buscou vingança. Era uma peça enérgica e comovente, com um nome singelo...

-"Cala a Boca, Vadia"? - Antonio arregalou os olhos quando João terminou a música e anunciou o título.

-É. A história é meio que uma revanche por todas as suas outras músicas. - João riu. - Tá na hora de colocar um pouco de atitude nesse negócio. Seu personagem só leva chifre, pô!!

Antonio gostou da brincadeira. A música era boa mesmo. Decidiram ensaiá-la.

-Eu ainda estou quebrando a cabeça com as letras para aquela que finalizamos antes.

-Deixa eu adivinhar - brincou João - Algo sobre um amor perfeito que não acaba bem. Ai, quanta sofrência..!

-Bom, pelo jeito há mercado para quem diz que amar é sofrer, né? - Antonio tentou rebater.

-Para quem ama uma maluca como a Dana, deve ser...

-Não começa. - Antonio fechou a expressão, mas não o suficiente para intimidar o sorriso de João.

-Não me leve a mal, eu gosto da Dana. Ela é engraçada, piradona, inteligente e boa amiga. Mas ela não é mulher para você, meu amigo... É um conselho que eu daria ao meu irmão, ao meu filho, ao meu pai...e tenho que dar pra você: Deixa a Dana na amizade.

-Você está sabendo de algo que eu não sei? - Antonio reagiu, subitamente enciumado. João foi sério e suave ao responder:

-Antonio, eu estou sabendo exatamente do mesmo que você deve saber a respeito do comportamento da Dana por aí. Ela bebe demais, fala umas asneiras, sobe no palco e vomita até as tripas, mas não anda com outros caras. E muito menos comigo. - João concluiu com um sorriso honesto.

Antonio baixou a guarda, mas permaneceu em silêncio. Não tinha porque duvidar de João, e de fato nem de Dana. Ela sempre ligava, o avisava onde estava. Se não avisasse, ao menos nunca mentia. Nunca tinha dado liberdades ou intimidades para outros rapazes, na ausência ou presença de Antonio. Por um instante, ele sentiu mesmo vergonha pelo próprio ciúmes.

João mudou de assunto.

-E aí? Bora tocar?

-Demorou. Como é mesmo esse comecinho aí?

Hora após hora foram lapidando a obra de João. Tendo idéias para novas viradas, novos momentos, aproveitando a energia da música. Os dois passaram a tarde gravando os instrumentos de apoio e chegaram a um "rascunho satisfatório do hit do próximo verão".

Ao final da primeira audição dos resultados, a conclusão dos amigos foi rápida e mútua. Em uníssono, concordaram: "Precisamos de uma banda de apoio!"

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