12. Te esperaria para sempre
Antes de chegarem, João ligou para Mary Lou e disse que Dana não parecia muito bem. Disse que estava tudo sob controle, mas era melhor que mantivesse de olho na prima.
Mary avisou os pais que iria buscar Dana no estúdio quando a banda voltasse do show. Os tios conheciam bem a sobrinha, que era uma garota inteligente e bondosa no geral, mas que desde cedo apresentara sérios transtornos com bebidas.
Os pais de Dana eram respeitados membros da igreja local. Cristãos, desses bem fervorosos. Dana era uma menina querida e exemplar na comunidade… até completar 13 anos. Foi nessa idade que ela começou a mudar, ficar estranha. Sua primeira menstruação causou-lhe uma impressão muito forte. Ela logo percebeu que as mulheres de todas as épocas sempre foram capazes de encarar o sangramento como atestado de vigor e saúde, enquanto o sangue masculino era sempre associado à dor e ferimentos.
Ninguém lhe dissera isso, ela apenas sabia. E antes de cada período, ela começava a ter esses sintomas estranhos. Uma espécie de paranóia esquizofrênica de que suas percepções ficavam mais vívidas. Sua capacidade sensorial aumentava, o humor flutuava, tudo parecia mais melodioso, mais colorido, mais saboroso. Eram os dias em que Dana ficava mais calma, carinhosa e sóbria.
Foi num desses dias que ela se descobriu apaixonada pelo menino tímido do colégio, com um jeitão de caubói nerd. Cresceram na mesma cidadezinha e sempre frequentaram as mesmas escolas, mas não eram realmente próximos, até o penúltimo ano do ensino médio, quando começaram a namorar.
Dana gostava de estrelas cadentes. Curtia passar noites inteiras em claro, no campo, observando o céu de cima de um trator em repouso. Antonio adorava acompanhá-la nessas ocasiões. Ficavam lá, bebendo cerveja que pegavam escondido de seus pais, e conversando sobre os mapas, figuras e histórias que enxergavam nas constelações.
-Olha lá, Antonio! - ela apontava uma estrela cadente riscando o céu - O destino de alguém acabou de mudar..!
Dana pintava no universo de Antonio milhões de histórias e figuras com as estrelas. Para cada luz no céu ela tinha uma explanação, e se nenhuma soubesse, eles inventavam juntos. Eram adolescentes: que ninguém ousasse dizer que não era amor puro e verdadeiro! Dava gosto ver a carinha dos dois quando estavam juntos e tudo estava bem. Pareciam protagonistas de filme da Disney.
Mas...ela também tinha esse lado estranho. De vez em quando, bebia demais e punha-se a fazer desmiolagens. Do tipo entrar em velórios de desconhecidos, aos prantos, e cumprimentar todos os presentes, apenas para servir-se do café e bolinhos servidos na capela aos parentes do falecido. Não parecia maldade, apenas rebeldia de adolescente. A filha única de um pastor e uma beata sempre sentiu a igreja e a religião como uma constante rival na atenção dos pais.
Para Antonio, Dana parecia a mulher dos sonhos. Um reflexo de tudo o que ele poderia idealizar sobre uma heroína, inclusive sua ousadia arrebatadora, seu humor ácido, suas tiradas espirituosas. E um senso de humor quase infantil.
Dana ainda era, aos 17 anos de idade, uma criança sem nenhuma pressa de crescer. E era assim que também Antonio se sentia. Mas Dana era uma criança que brincava com fogo, e seus pais simplesmente não sabiam como lidar com a situação na prática. Não conseguiam admitir que haviam estado ausentes, e muitas vezes preferiam mesmo culpar o “demônio” pela “perdição” da menina.
-Não sou “perdida”, pai. Só não consigo acreditar nessa lengalenga aí, de Deus que fez filho em mulher virgem, e talz..!
Talvez Dana sequer soubesse, em sua efervescência adolescente, o quanto estava sendo provocativa. Antonio às vezes ousava questioná-la sobre sua consciência ao ser tão desrespeitosa com a espiritualidade dos pais.
-Eu falo o que eu penso! - ela reclamava, fazendo biquinho. Antonio nunca discutia. Será que devia discutir?
Ele se lembrava bem da primeira vez em que Dana desapareceu, anos antes. Os pais dela chegaram mais cedo da igreja e não a encontraram em casa. Havia um pânico generalizado naquela ocasião, pois a cadela de guarda da chácara vizinha havia sido brutalmente estraçalhada de algum jeito - que os policiais e bombeiros da cidade no local concluíram tratar-se de ataque de algum animal maior, que inclusive havia devorado algumas partes da cachorra.
Por ser aquela uma área rural e relativamente bem afastada do centro e da estrada, não parecia impossível que uma onça ou um bando de cães selvagens estivesse rondando a região. Tal perigo apressou as buscas pela jovem, que foi encontrada horas mais tarde vagando pela mata, embriagada, suja e malcheirosa, porém ilesa. Os pais apregoaram seu resgate como um milagre divino de fé. Dana falava que foi a cachaça da macumba encontrada na encruzilhada é que a havia salvo da hipotermia.
Pouco tempo depois que começaram a namorar, Antonio perguntou a Dana sobre o ocorrido naquela noite. Dana hesitou. Visivelmente com o pensamento ausente, respondera que foi encontrar-se com umas amigas para experimentarem bebidas alcoólicas, mas não imaginou que fosse ficar tão bêbada.
Mais tarde, Antonio descobriu que Dana mentira, pois as amigas afirmaram que ela disse que havia ido encontrar um rapaz que conhecera pela Internet. Ele jamais teve coragem de confrontá-la com aquela informação.
Porém, conformou-se com o que lhe confissionara Mary Lou - àquela altura a menina havia se tornado cúmplice de Antonio nos cuidados com Dana, e era considerada como melhor amiga por ambos.
-Eu não me preocuparia, Antonio. Perguntei desse negócio de encontro, e ela só disse que nem rolou. Na verdade, ela foi tão seca que minha impressão é que ela simplesmente mentiu pra todo mundo e saiu sozinha pra beber. Infelizmente a Dana tem essas coisas…
Mesmo tendo esses episódios de alcoolismo e rebeldia, havia longos períodos de paz, onde a comunidade ainda reconhecia em Dana a menina dócil e exemplar que crescera na vizinhança. Não frequentava os sermões, mas auxiliava de bom grado os pais nas obras assistenciais da igreja, e tirava notas altas em quase todas as matérias da escola. Sua fala revelava uma garota madura, de gracejos inocentes que divertiam as pessoas ao seu redor. Era essa a Dana que Antonio amava com todas as forças de seu ser, o suficiente para aguentar calado a misteriosa tempestade na qual ela eventualmente se transformava.
Por quê gostava tanto dela, afinal..? - ele se perguntava.
Comentários
Postar um comentário