13. Um dia ela decidiu partir
As pancadas na janela foram ainda mais urgentes. Antonio acordou sobressaltado.
-Mas que merda, Dana! - reagiu por impulso, e com bem menos bom-humor do que em outras manhãs. Até porque, era de fato tarde da noite, e pela cara da garota, algo estava muito errado. Sua expressão enfezada tornou-se de súbito preocupada.
-Entra por aqui mesmo. - ele abriu a janela e esperou a moça escalar um parapeito com floreiras. Ela pulou a janela e caiu sentada no chão, envergonhada. Antonio a abraçou e deixou que soluçasse em seus braços, antes de desabafar.
- Eu vou embora. - ela murmurou, afinal.
-Como assim..?! - Antonio perguntou incrédulo.
-Papai me expulsou de casa. Disse coisas horríveis, e mamãe concordou. Eu também concordo. Eles não merecem ter uma filha assim, como eu.
-Dana...Dana..! - Antonio sacudiu os ombros da moça - Seus pais não podem ter lhe expulsado de casa. Eles são… - Antonio hesitou, temendo que a afirmação fosse insuficiente - Eles são bons cristãos!
-Antonio, você devia ter visto a cara da minha mãe. Ela realmente acredita que eu sou o Diabo.
-Dana… vamos lá… conversar com seus pais. Que tal?
-Você?! -agora Dana parecia desacreditar -Olha só tudo o que eu fiz, Antonio. Menti pra você. Te deixei na mão na noite mais importante da sua vida. Eu só estrago tudo, Antonio. Você tem um futuro de sucesso pela frente. É inteligente, talentoso, e vai vencer. Eu não quero estragar isso também…
-Dana, não fale assim.
-...eu não vou mais envergonhar ninguém, Antônio. Tá me escutando? Eu estou indo embora.
- Não faça isso.
- Eu não estou fugindo.Mas agora, agora eu estou sozinha aqui, Antonio. Eu vou pra capital. Lá tem amigos que vão me apoiar.
- Quem você conhece na capital..? - Antonio estranhou. Mas Dana já foi se adiantando na resposta:
- Lembra do cara que foi entregar minha câmera? Ele é produtor de áudio e vídeo num estúdio grande, na capital. Conheci ele e a esposa no Festival, e eles deram o cartão deles para eu pegar minha câmera de volta caso eles não conseguissem te entregar…
- Um segurança do festival me entregou sua câmera. - Antonio observou, ríspido, deixando transparecer seu incômodo com aquela história toda. Dana, cujos olhos faiscaram por um instante, voltou ao tom tristonho de antes.
-Aqui está o endereço - ela estendeu um papel a Antonio.
- É meio longe pra te visitar, né? - ele respondeu, ainda amargo, sem ler o bilhete.
- É pra você saber onde estou. - ela respondeu, agora em um tom mais firme. - Só você e a Mary Lou podem saber.
- Se Mary Lou souber, com certeza vai contar ao João.
-O João nem tem pra quê querer saber de mim. Mas você entendeu. Para essa cidade, eu sumi. Para vocês, eu estarei lá.
Antonio estava de pé, parado em frente a namorada, sem saber o que fazer para impedi-la, o que era sua vontade.
-Não há mais nada que possa ser feito..?
Ela o beijou.
-Sucesso, com a sua banda.
Disse isso, virou-se e pulou a janela rapidamente. Recolheu a mochila do parapeito e saiu correndo. Antonio tentou segui-la, sem se preocupar em gritar pela madrugada:
-Espera! Dana! Como você vai viajar? Quando vai partir?
Mas a moça era rápida, ágil, e estava escuro. Ela desapareceu. Ele chegou a correr pelas ruas até próximo a casa dela, que estava apagada e tranqüila. Com certeza ainda não haviam se dado conta do sumiço da filha, e mesmo quando o fizessem, com o histórico de Dana ainda talvez não percebessem a realidade da situação de imediato. Antonio perguntou-se por um instante o que poderia fazer. Resolveu voltar para sua casa.
Caminhando sozinho na estrada deserta, deixava que as lágrimas corresssem abertamente por sua face. Podia jurar que ao longe, ouvira por mais de uma vez, os gritos de Dana. Mas era apenas o uivo longínquo de algum cachorro entediado na madrugada.
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