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Mostrando postagens de agosto, 2020

1. Contos reais

 Antonio levantava cedo, geralmente antes do amanhecer. Mas ainda faltava muita madrugada quando ele acordou, atordoado com as fortes batidas no vidro da janela: -Que merda, Dana..! - ele resmungou ao refazer-se do susto e dar de cara com o sorriso aberto da namorada, que trazia uma cerveja em cada mão. Ela vai até a porta e aguarda, ele sai um pouco depois. Ela vai ao seu encontro com um beijo apaixonado Ele retribui, mas reclama: -Não tá um pouco cedo pra isso, não? -Nunca é tarde. Ainda não dormi, passamos a noite na festa da prima Irene. Resolvi vir tomar um "café da manhã" com você antes da aula..! -Você vai pra aula desse jeito? Quer que eu acredite? -Claro. Chego em casa, tomo um banho normalmente. Meus pais não iam me esperar acordados, mesmo. - ela riu meio alto, meio bêbada. Antônio pediu com um gesto que ela fizesse menos barulho, e ela baixou o tom, com meiguice: -Guarda aquele lugar ao seu lado pra mim, tá..? -Não se atrase para sua posse! - ele beijou-a e assist...

2. Lobos e ovelhas

De volta ao lar, Antonio dedilhava um piano, buscando novas canções. Desde cedo interessou-se por música e aprendeu a tocar e compôr de ouvido naquele mesmo velho piano que chegara à casa como herança da falecida avó. Assim, o menino que já gostava de poesia aprendeu sozinho a juntar os versos com música e decidiu que gostaria de dedicar sua vida a isso. João José era seu parceiro natural, demonstrando um talento excepcional ao violão. Além das aulas no conservatório, passava horas ensaiando para aperfeiçoar sua técnica. Era tão apaixonado por música quanto Antonio, e essa paixão serviu para unir ainda mais os dois garotos. Às vezes passavam o fim de semana inteiro ensaiando e compondo músicas que apresentavam nos festivais escolares ou pequenos eventos da comunidade. João não opunha-se que Antonio escrevesse praticamente todas as letras sozinho, mas costumava fazer graça com a preferência do amigo em escrever sobre relacionamentos infelizes. - Cê se amarra em um coração partido, né? -...

3. Ninguém liga

 Antonio e João José marcaram de encontrar-se no final da tarde, na escola de música próxima ao centro. João, como de hábito, cumprimentava com uma desculpa. -Pô, Antonio, 'foi mal' ter convidado  as meninas sem ter te perguntado nada antes... -Bah, tudo bem. Hoje eu nem tô muito inspirado mesmo... o ensaio não vai render de qualquer jeito. -Trouxe uma cerveja pra gente tomar depois. -Quem é que estava de ressaca hoje cedo..? -E daí... Hoje é sexta. -Você não acha que é muito novo pra se embebedar? -Ih...Você tá um saco. - concluiu João. - Vamos logo começar esse ensaio. Quase duas horas depois, chegam Mary Lou e Dana. Mary, tímida, senta-se num canto do estúdio ao lado do namorado. Enquanto Dana conta empolgadíssima uma história extraordinária sobre um acontecimento qualquer, os meninos recolhem os instrumentos e desocupam o estúdio. Voltam a pé, caminhando pela rua larga, sob a luz do luar. -Que noite linda! - repara Antonio. -Eu não gosto de noites claras assim. - observou ...

4. Mal sem nome

Quase meia noite. A Lua se aproximava de seu ponto alto no céu. Debaixo das cobertas, Dana, os olhos fechados, suava frio. Finalmente, o barulho na porta: lentamente, ouve seus pais entrarem, tirarem os sapatos. Tentam não falar alto para não incomodar, mas Dana geralmente acharia impossível não acordar com os ruídos desajeitados de seus pais já idosos, chegando tarde da igreja, após seu pai pregar o último sermão e atender à comunidade. Ultimamente, era cada vez menos comum que a filha estivesse em casa nesta hora. Mesmo assim, os pais tentavam tomar cuidado. A mãe, especialmente mais zelosa do sono daquela filha a quem tanto amava e entendia estar passando por uma fase difícil. O pai já não se conformava com a afronta que era ter a filha adolescente vadiando por festas e bares enquanto ele espalhava a Palavra do Senhor. Respirava aliviado quando notava que a garota está dormindo tranquilamente em sua cama. A mãe se aproxima e Dana murmura "Boa noite", aos que os pais respon...

5. Sobre um homem, um amor, uma mulher, e como tudo isso vai pro saco

 Lá estava Antonio de novo, no estúdio, tocando notas soltas, sem concentração suficiente para criar. Repassava as quatro primeiras notas de uma música que urgia em sair, mas esbarrava na falta de concentração de Antonio. A chegada de João José quebrou a torrente de pensamentos desconexos quepercorria sua mente. -Trouxe uma música nova hoje! - João foi animadamente falando, e já tirando o violão da capa para mostrar a melodia que compusera na noite anterior. Antonio foi ouvindo, a princípio meio distraído, mas depois as idéias começaram a fluir. A poesia começou a fazer sentido. Era a história de um homem bom, que honra a educação que sua mãe lhe deu. Mas este homem fora traído pela esposa e buscou vingança. Era uma peça enérgica e comovente, com um nome singelo... -"Cala a Boca, Vadia"? - Antonio arregalou os olhos quando João terminou a música e anunciou o título. -É. A história é meio que uma revanche por todas as suas outras músicas. - João riu. - Tá na hora de colocar um...

6. Dois meninos

 João José chegou do estúdio e foi direto para o quarto, atravessando a "conversa" dos pais, que discutiam aos berros na sala Nem quis saber o motivo da briga, nem quem tinha ou deixava de ter razão. Só queria continuar com aquela vibração boa do ensaio daquele dia. Dedilhou o violão e pensou mais uma vez em terminar aquela balada linda que exigia mais concentração do que ele estava disposto a dedicar naquele momento. Mas tinha um bom sentimento para aquela música, mesmo tendo a certeza que Antonio inventaria uma letra para torná-la um poço de tristeza..! João gostava muito de Antonio. Foi o primeiro amigo que fez na cidade, quando sua família mudou-se para lá. João tinha quase seis anos, Antonio havia recentemente completado oito. Estavam na mesma classe, na mesma escola, mas apesar de dividirem um mesmo cotidiano, eram crianças muito diferentes. Formavam aquela espécie de "dupla dinâmica" que funciona bem apesar do aparente conflito interno. Ainda eram crianças qu...

7. Com os amigos ao lado

 Dana passou o domingo todo na cama. Como tinha certeza que a filha não saíra e estava apenas curtindo uma folga, a mãe deixou-a dormir. Ela foi abrir os olhos às cinco e meia da tarde, com Antonio mexendo em seu travesseiro. -Você se divertiu ontem à noite? Dana engoliu em seco. Sentia-se ótima, mas com o corpo dolorido de quem correu uma maratona. -Eu dormi a noite toda. -E até agora? - ele perguntou incrédulo. -Sim. - ela disse com firmeza. - Eu estava com a ressaca acumulada da festa da minha prima. -Dana, você sabe que confio em você e não me importo de você ir aonde quiser, só quero que me conte onde foi! - Amor, eu estive aqui dormindo a noite toda, pergunte à mamãe! Antonio recuou. Sabia que Dana não assumiria esse risco se não tivesse plena confiança do que fazia, porque Antonio ia perguntar mesmo. Só por isso, questionar em si era desnecessário. -Eu só tô cansada. -Desculpe, amor. Abraçaram-se e beijaram-se. Ele perguntou se ela pretendia dormir direto até o horário das a...

8. É amor que não acaba mais

 Agora Mary passava quase todo tempo em casa. Justamente ela, que gostava mais de festa do que a irmã..! Mas não era a mais velha, a "de maior"... - desprezava Mary. Não podia mais ver sua prima Dana..! A mãe de Mary não gostava de Dana, mas como confiava na filha, não importava que andasse com a sobrinha "desajustada". Mas decerto não permitiria que ela andasse somente com Mary. Foi socializando em companhia da irmã e prima que Mary conheceu João. O melhor amigo de Antonio, que nunca largava Dana. É a dinâmica da vida nas pequenas cidades. Ela se apaixonou pelo mocinho lindo e carinha de anjo rebelde. Na inocência de adolescente tímida, tinha certeza que era amor. E após um ano de comedida paquera, aceitou emocionada o pedido de namoro de João. Nesses dias de semi confinamento, no ócio das férias, dedicava-se a escrever carinhas decoradas e bilhetes fofinhos para João. Trabalhava desde então em uma carta de um quilômetro de comprimento, com a qual pretendia present...

9. Ao ar livre

  O primeiro ensaio daquele outono já reunia uma banda completa. Antonio fazendo o vocal principal e teclados. João era a segunda voz e o violão. Tomas, o velho amigo de João também conquistou a simpatia de Antonio e trouxe seu talento e amizade para a banda. E Marcos, o menino-prodígio dos cultos musicais na igreja, trouxe o baixo. -Está muito bom..! - Mary Lou comentava com Dana durante o ensaio. Dana ia tirando fotos e fazendo clipes de vídeo sem parar, com sua câmera semiprofissional. Seriam dela os primeiros registros da banda: imagens raras que os fãs considerariam um privilégio ter visto um dia. Foi ela também que dirigiu e fotografou o primeiro ensaio fotográfico promocional. -Estamos tocando juntos há tempos e sabemos que o objetivo é nos lançarmos como banda...Mas alguém reparou que não temos um nome, ainda? -Vai se chamar, sei lá,  “Melô Tropical !”- Antonio anunciou, com o assentimento de todos, exceto Tomás que foi quem havia perguntado do nome… e a resposta parec...

10. Eu sei que te amo

Tiveram um almoço farto e saboroso no restaurante da área VIP do festival. Foram muito bem recepcionados pela produção e pelos outros artistas. Tomás e Marcos foram circular pelas áreas do público, queriam curtir o eventual assédio dos fãs e encarar o rodeio mecânico logo depois de comer…. A programação diurna do festival estava chegando ao fim, e a área de backstages estava praticamente esvaziada, mais de duas horas antes do início das atividades no palco noturno. Justamente pela tranquilidade e privacidade, Antonio e Dana resolveram voltar (meio às escondidas) para o camarim privativo reservado à  banda . Assim que certificou-se que estavam sozinhos, Dana precipitou-se a beijar Antonio com todo seu corpo. Ela estava totalmente rendida àquele impulso animal, mas sabia que não devia ceder. -Toni, eu estou superafim… Mas hoje, não. - ela corrigiu - Aqui, não. -Você tem razão - ele contrariou os instintos. -É por isso que eu te amo tanto. Antonio olhava para ela meio atordoado. Dana...

11. Pacta sunt servanda

 Já fazia tempo que a cortina havia se fechado, e as pessoas deixavam o local do festival. Um segurança aproximou-se de Antonio e entregou-lhe uma bolsa preta. -Sr. Antonio Cristiano? - indagou o brutamontes -Sou eu. -Um rapaz me pediu para lhe entregar isso aqui. Era a câmera de Dana. -Obrigado. Onde..? - Antonio estava perplexo - Onde está a dona dessa bolsa? -Não sei. - respondeu o segurança. - Quem me entregou foi um rapaz. Alto, loiro, bem magro. Não tinha nenhuma moça com ele. -Você pode trazê-lo aqui, por favor? -Posso tentar encontrá-lo, se ainda não foi embora… -Por favor. - Antonio tentou segurar seu nervosismo, para não ser rude. Abriu a bolsa. A câmera e os acessórios estavam todos ali. Inclusive a credencial de imprensa de Dana. Antonio ligou a câmera, pôs-se a conferir as imagens. Haviam takes muito bons do público e do palco, cenas realmente muito bem registradas, mas nenhuma pista sobre se teria sido Dana quem captou aquelas imagens. Ela não cumprira com a promessa ...

12. Te esperaria para sempre

 Antes de chegarem, João ligou para Mary Lou e disse que Dana não parecia muito bem. Disse que estava tudo sob controle, mas era melhor que mantivesse de olho na prima. Mary avisou os pais que iria buscar Dana no estúdio quando a banda voltasse do show. Os tios conheciam bem a sobrinha, que era uma garota inteligente e bondosa no geral, mas que desde cedo apresentara sérios transtornos com bebidas. Os pais de Dana eram respeitados membros da igreja local. Cristãos, desses bem fervorosos. Dana era uma menina querida e exemplar na comunidade… até completar 13 anos. Foi nessa idade que ela começou a mudar, ficar estranha. Sua primeira menstruação causou-lhe uma impressão muito forte. Ela logo percebeu que as mulheres de todas as épocas sempre foram capazes de encarar o sangramento como atestado de vigor e saúde, enquanto o sangue masculino era sempre associado à dor e ferimentos. Ninguém lhe dissera isso, ela apenas sabia. E antes de cada período, ela começava a ter esses sintomas est...

13. Um dia ela decidiu partir

 As pancadas na janela foram ainda mais urgentes. Antonio acordou sobressaltado. -Mas que merda, Dana! - reagiu por impulso, e com bem menos bom-humor do que em outras manhãs. Até porque, era de fato tarde da noite, e pela cara da garota, algo estava muito errado. Sua expressão enfezada tornou-se de súbito preocupada. -Entra por aqui mesmo. - ele abriu a janela e esperou a moça escalar um parapeito com floreiras. Ela pulou a janela e caiu sentada no chão, envergonhada. Antonio a abraçou e deixou que soluçasse em seus braços, antes de desabafar. - Eu vou embora. - ela murmurou, afinal. -Como assim..?! - Antonio perguntou incrédulo. -Papai me expulsou de casa. Disse coisas horríveis, e mamãe concordou. Eu também concordo. Eles não merecem ter uma filha assim, como eu. -Dana...Dana..! - Antonio sacudiu os ombros da moça - Seus pais não podem ter lhe expulsado de casa. Eles são… - Antonio hesitou, temendo que a afirmação fosse insuficiente - Eles são bons cristãos! -Antonio, você devia...

14. Sem olhar para trás

 Nos dias que se seguiram não se falava em outra coisa na cidade, além da partida de Dana. Não havia mais o que se pensar em seqüestro ou homicídio, pois do próprio telefone, Dana havia mandado mensagem em vídeo para os parentes, dizendo que estava viva e bem, mas que não voltaria mais e não usaria mais aquele número de telefone. O Sr. O’Hara, seu pai, ficou triste, mas irredutível. Repetia que havia sido melhor assim, que a filha escolhera o próprio caminho, mas que rezaria muito para livrá-la das tentações do demônio. Sua esposa não levantava os olhos, apenas balançava a cabeça em concordância, repetindo em um murmúrio: “Vamos rezar muito”. Dois dias mais tarde, Dana mandou uma mensagem diretamente no telefone de Antonio, com seu novo numero de contato. Antonio demorou para responder. Estava chateado. Trocaram algumas mensagens, ela lhe mandou fotos do casal que a acolheu, falou de seus planos de encontrar um trabalho, e em breve ter seu próprio espaço. Falava do encantamento da ...

15. Amor condicionado

 Um mês após a partida de Dana, Antonio encontrou os pais dela em frente ao templo onde congregavam, passando de volta do mercado. -Antonio, quanto tempo..! - cumprimentou o senhor. -Sr. e Sra. O’Hara. É bom vê-los. -Uma pena não nos encontrarmos mais em ocasiões felizes. - lamentou a senhora. Antonio sentiu-se constrangido, em um sentimento que pareceu abraçar os três. -Ela volta. - ele apenas disse, quase que para si mesmo. -Temos rezado dia e noite por nossa querida Dana, que Deus abra seus olhos e guie nossa pequena de volta ao caminho dos céus..! - o pastor falou, com uma eloqüência missal, ao que sua esposa ecoou: “-De volta ao bom caminho..!” -Todos os dias, peço para ter minha filhinha de volta, entrando pelas  portas do templo durante o culto, pedindo perdão a Deus por seus pecados e prometendo sua vida a viver dignamente segundo os ensinamentos do Senhor..! -Aleluia! - glorificou a sra. O’Hara. -Mas o senhor a perdoaria, se ela voltasse? - perguntou Antonio. -Se Deus...

16. Chuva e sol não são a mesma coisa

 A agenda de shows da banda de Antonio e João estava lotada. Eles se apresentavam em praticamente todos os fins de semana - e não mais nos casamentos e batizados que os meninos costumavam animar desde os treze anos. Eram palcos bem estruturados e públicos cada vez maiores. A banda era um sucesso. Mary Lou andava inquieta. Não queria bancar a ciumenta, mas não estava gostando nada do assédio a João, que inundava as redes sociais. Garotas desconhecidas postavam fotos dele, algumas assinavam o sobrenome do músico. Ela sabia que isso acontecia, era um reflexo natural do sucesso. Mas não imaginava que fosse lhe incomodar tanto. Mary Lou conversava muito com Irene, a irmã mais velha, sobre seu relacionamento com João. Era sua confidente e cupido - já que foi através dela que os dois se conheceram. João estudava na mesma classe que a irmã de Mary. Apesar de estar morando no exterior, as duas mantinham constante contato através de mensagens. -Mary Lou, já te falei quinhentas vezes. Eu não ...

17. Na bruma da manhã

João mal pôde acreditar quando recebeu o correio pela manhã. Foi correndo esbaforido até a casa de Antonio. Passou pela porteira baixa que estava sempre aberta, e foi bater na mesma janela onde Dana sempre batia. Pelo vidro, já avistara Antonio sentado ao computador. -Você viu isso? - João mostrava o envelope, aos berros. Antonio foi até a janela, João jogou o envelope e Antonio o pegou, examinando-o enquanto o amigo dava a volta na casa e tocava a campainha. Um envelope preto, de fino acabamento, letras envernizadas, estilo “cartão de agente secreto”. Dentro, um convite oficial da maior gravadora do continente, para que os visitassem e considerassem uma conversa sobre um possível contrato. A mãe de Antonio abriu a porta e foi efusivamente “bombardeada” por um João transbordante de entusiasmo juvenil. Quando o rapaz chegou ao quarto do amigo - e a mãe o seguiu, curiosa- encontrou Antonio paralisado, com uma expressão de choque. -E ai?! - João perguntou, empolgado. -Isso aqui é de verda...

18. Sobre lugarejos e lendas

O ataque de um animal a um celeiro, numa zona rural próxima a uma área de preservação ambiental não era uma notícia assim tão digna de ser investigada pelo jornal do horário nobre quanto aqueles adolescentes pensavam. Assim, dificilmente se saberia o que realmente aconteceu naquela chácara, antes de uma onda de versões fantasiosas e absurdas terem percorrido a comunidade. Ataques daquele tipo na região eram uma realidade enfrentada desde que os primeiros homens habitam aquelas terras. A mata no entorno era mesmo habitat natural de alguns carnívoros de médio e até grande porte, que eventualmente atacavam animais domésticos em fazendas. Tais ataques foram se tornando cada vez mais raros ao longo dos anos, com a crescente ocupação humana e diminuição do número de espécimes na região. Mas às vezes, aconteciam. Geralmente ocorriam em série, até que a guarda florestal capturasse o animal e o recolhesse a uma reserva mais distante da cidade. As notícias das capturas, essas sim, chamavam a ate...

19. Bate-volta

 Na quinta feira, Antonio, João, Tomás e Marcos pegariam um avião até a capital, onde ficava o escritório nacional da gravadora. Era o primeiro vôo de todos ali - o que acrescentava ainda mais empolgação à turma. Os pais de João, Tomás e a mãe de Marcos também os acompanhavam, já que eram menores de 21 anos. Todos estavam animadíssimos, alimentando as redes sociais com fotos e relatos. Quando chegaram ao escritório, já sentiam-se como estrelas. -E aí, meninos, gostaram do vôo? - uma mulher muito bonita veio recepcioná-los. -Muito legal, parece um parque de diversões! - Marcos falou, arrancando risos da mulher. -Bem, meu nome é Tanya. Vamos conversar lá dentro? - convidou, apontando uma grande sala, bem decorada, com mesa e projetor. Durante a reunião, que incluiu outros representantes da gravadora, ficou explicado que havia interesse em um contrato para a produção do próximo álbum, filmagem de videoclipe e uma grande turnê nacional. Os meninos estavam abertamente empolgados. Era in...

20. Os olhos não traem

 A banda agora ensaiava praticamente todos os dias, afinando o repertório e compondo novas canções para garantir o álbum de estréia pela grande gravadora. A turnê logo começaria. Havia uma quantidade insana de shows marcados para logo no início das próximas férias. Antonio estava inquieto. Não conseguia mais dormir cedo. Após o jantar, a cabeça sempre ficava mal. Pegou o hábito de caminhar sozinho à noite, tentando encarar seus pensamentos. As músicas estavam ótimas. Produziam bem, e a banda estava entrosadíssima. Mal podiam esperar para filmar o videoclipe. João e Antonio eram sempre os últimos a sair do estúdio. Haviam criado uma forte amizade com os outros meninos, mas o que havia entre eles era sem dúvida, especial. E essa união era o verdadeiro “motor” da banda. Dessa vez o ensaio havia entrado pela madrugada e resultado no que viriam a ser duas novas canções. O sol já quase renascia, e os velhos amigos deixaram-se distrair pela conversa. Quando o silêncio finalmente os interr...

21. Estava um lindo dia

João e Antonio apressaram-se em deixar o estúdio e ir correndo em suas bicicletas até a casa dos pais de Dana. O sol nascia no horizonte revelando um belo dia de verão que começava, enquanto muitos vizinhos e quase toda a congregação aglomeravam-se no entorno da casa dos O’Hara. Mary Lou estavana varanda, e viu quando os rapazes se aproximaram. Acenou para eles, em um gesto que poderia parecer até informal e alegre demais para a ocasião, mas a leveza de seu cumprimento foi logo esmagadoramente oprimida pelo corpanzil de seu pai, que bloqueou-lhe a visão dos visitantes. -Vá para dentro, Mary. -Só vou cumprimentar o João e o Antônio, papai. -Vá para dentro AGORA, Mary. Mary Lou entrou, lançando antes para os amigos um olhar de susto e inquietação. O pai de Mary veio ao encontro deles, descendo os degraus da varanda. -Creio não ser bom que fiquem por aqui. -Por quê não? - João questionou- A Dana é nossa amiga. -Porque o Sr. O’Hara é nosso amigo - corrigiu Antonio, com propriedade. -Ele mo...